Chatô, filme de Guilherme Fontes, é uma alegoria sobre o Brasil e a República

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Marco Ricca (Assis Chateaubriand) e Paulo Betti (Getúlio Vargas) em Chatô Foto: Divulgação

Frases como “nós dois somos iguais – o mesmo tipo de canalha” e “onde houver uma injustiça, eu estarei lá”, surgidas dos embates entre Assis Chateaubriand (Marco Ricca) e Getúlio Vargas (Paulo Betti), consagram o caráter universalista de Chatô – O Rei do Brasil, filme de Guilherme Fontes que chega aos cinemas depois de quase 20 anos de filmado.

Dado como um projeto fracassado – que durante um tempo, entre 1997 e 1998, contou com  parceria de Francis Ford Coppola,  amargou acusações de mau uso do dinheiro público (com a captação de mais de R$ 8, 5 milhões), dentre as inúmeras irregularidades -, é inspirado no livro homônimo de Fernando Morais.

Mas vai além de uma cinebiografia ao centrar-se na história do magnata Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968), que, entre os anos 1930 e 1960, criou um império midiático formado por mais de 100 jornais,  rádios, revistas, duas televisões e uma agência telegráfica.

REPÚBLICA - Chatô não é exatamente (ou apenas) a vida do homem de comunicação. Guilherme Fontes se apropria dos fatos históricos e reais para entregar um filme debochado, cínico, irreverente, mas muito divertido e atrevido, uma comédia dramática, como quer o diretor, que passa a limpo, aliando liberdades ficcionais a relatos verdadeiros, boa parte da história política e social da República.

Desfila na tela, por cerca de 1 hora e 45 minutos, um elenco de divindades interpretadas por Andréa Beltrão, a Vivi – soma das paixões desenfreadas de Chatô e uma espécie de síntese do jogo de artimanhas e interesses espúrios que dominam os bastidores do poder  -,  por Letícia Sabatella (Maria Eudóxia, a primeira mulher de Assis), Leandra Leal (Lola Abranches, sua segunda esposa) e Gabriel Braga Nunes, Carlos Rosemberg, que a um só tempo reúne traços de Carlos Lacerda e Samuel Wainer.

REFERÊNCIAS – Em coma no leito de um hospital, Chateaubriand revê o passado, ao mesmo tempo em que sofre um julgamento moral público encenado em um programa de televisão. Como não poderia deixar de ser, tem muito de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, em sua fúria investigativa em torno de um personagem.

Sua narrativa se ancora em situações que lembram muito o eixo central de O Show Deve Continuar (All That Jazz, 1979, de Bob Fosse), em que um diretor coreografa a própria morte, depois de sofrer um ataque cardíaco,  e de Lola Montès (1955), de Max Ophüls, um resgate barroco e fascinante da vida da bailarina, atriz e cortesã irlandesa por meio de um espetáculo circense.

Chatô vai também com muita sede às águas do Modernismo brasileiro, bebendo sobretudo em Macunaíma, de Mário de Andrade, em seu caráter antropofágico: “Embaixador do Brasil na corte inglesa, estou preparando a burguesia europeia para um novo padrão cultural que se firmará em todo o planeta e virá do Brasil”, diz Chateaubriand logo no início.

Filme extraordinário nos mais diversos sentidos do termo, Chatô – O Rei do Brasil é um épico atemporal que tem muito a ver com o Brasil de hoje.

Acesse os links e leia entrevistas exclusivas com o cineasta Guilherme Fontes e o ator Marco Ricca.