César Deve Morrer é uma bela reflexão sobre o poder de transformação da arte

César Deve Morrer - pontocedecinema.blog.br

Adaptação da peça de Shakespeare, o filme dos irmão Paolo e Vittorio Taviani ganhou o Urso de Ouro em Berlim

Grandes nomes do cinema italiano, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani fazem mais um filme de altíssimo nível: César Deve Morrer, adaptação de uma das peças romanas do bardo inglês William Shakespeare.

Júlio César, o texto, trata da conspiração que levou ao assassinato do líder que desempenhou papel importante na consolidação do Império Romano. E que encontrou no cinema um dos seus melhores momentos na adaptação hollywoodiana de 1953, tendo o grande Marlon Brando no papel de Marco Antônio, o fiel companheiro de Júlio César.

Diretores de filmes marcantes da história do cinema, como Pai Patrão, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1977, e A Noite de São Lourenço, talvez sua obra-prima, Prêmio Especial do Júri, em 1982, em César Deve Morrer os Taviani fazem uma releitura nada convencional de Shakespeare.

O filme acompanha um grupo de encarcerados numa prisão de segurança máxima de Roma e sua atuação na peça. Não se limita a mostrar a encenação, mas todo o processo de montagem, tendo os presos ao mesmo tempo como personagens e atores, em vidas que se completam e se confundem na tela.

A representação de uma peça no cinema, no ato de sua criação, no palco, não é novidade. O grande diretor francês Louis Malle, morto em 1995, despediu-se de cena de forma brilhante com Tio Vânia em Nova York, filme que acompanha um grupo de atores ensaiando o texto clássico do russo Tchecov.

Seria ingênuo pensar que os Taviani criam uma obra de cunho meramente social, apostando na recuperação dos presos. Na prisão estão homens que pagam por crimes pesados, que vão do assassinato comum ao envolvimento com o tráfico de drogas, passando pelos subterrâneos da máfia italiana.

Shakespeare escreveu com tinta vermelha algumas das mais importantes páginas da literatura mundial. Seja em Hamlet, Othelo, Macbeth ou Rei Lear, para ficar apenas em alguns exemplos, invariavelmente, suas peças são manchadas de sangue. Tramas palacianas recheadas por camadas de traição em uma incessante luta pelo poder.

Júlio César não poderia ser diferente. Mas esta peça traz algo particular que a faz ideal para a encenação proposta pelos Taviani em um presídio de segurança máxima.

Homens são implacavelmente confrontados em sua natureza – quem é forte, quem é fraco, quem é leal, ou traidor. Júlio Cesar é uma peça de machos, assim como o lugar onde se passa a trama – a Roma antiga ou, no caso do filme, a Itália da Camorra, dos crimes pesados, sejam eles políticos ou comuns.

Ao fundir cinema e teatro, ficção e realidade, presente e passado, os irmãos Taviani friccionam duas linhas narrativas que guardam distância no tempo e no espaço, fazendo do filme, que ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2012, uma bela reflexão sobre o poder de transformação da arte.

Claro que um poder nem sempre pleno, como nos mostra o final duro e inexorável do carcereiro cerrando a porta do cárcere.

César Deve Morrer é um filme imperdível. Sem dúvida, um dos melhores do ano.