Casais de Cassavetes se encontram no amor e no tédio

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Gena Rowlands e John Marley em cena de Faces

Não se pode falar da arte de John Cassavetes sem falar de uma estrela: a atriz Gena Rowlands, que inicia uma trajetória frente às câmeras com o marido em Faces (1968), filme que será exibido amanhã (9/7) na mostra em cartaz até o dia 14 na Sala Walter da Silveira.

Neste fim de semana, além de Faces, a atriz pode ser vista em Uma Mulher Sob Influência, que ganha exibição no domingo. É bom assistir aos filmes com pouco intervalo de tempo entre um e outro, pois parecem lados de uma mesma moeda: focam na inconstância das relações familiares e suas variantes, que passam do afeto ao carinho até atos impensados e explosivos.

Aliás, não somente aqui, a arte do diretor norte-americano está baseada nessas flutuações amorosas, sejam elas entre casais, irmãos, pais e filhos e o que mais se puder pensar como uma família. Nos dois filmes, maridos e esposas formam o interesse básico: no primeiro, um casal cujo homem pede o divórcio e expõe a relação à fratura em apenas uma única noite; no segundo, a guerra conjugal deflagrada tem a ver com o ânimo da ‘mulher sob influência’ do título.

Em um primeiro momento, as discussões, os comportamentos alterados, os litros de álcool que se derramam no organismo, tornando os sentimentos à flor da pele, podem parecer exaustivos em Faces. O filme se divide em blocos narrativos que contemplam o prólogo, em que o diretor (John Marley) de uma empresa recebe um grupo para a apreciação de um filme.

Uma Mulher Sob Influência - pontocedecinema.blog.br

Uma Mulher Sob Influência

Os demais momentos de Faces, na realidade, se insinuam como sendo o filme projetado dentro do filme sobre o próprio diretor. Ele briga com a mulher (Lynn Carlin) e sai para a casa da outra (Gena Rowlands) que conheceu em um pub, enquanto a esposa parte para uma noitada com amigas em uma boate, onde conhece um garoto de programa (Seymour Cassel).

O casal de Uma Mulher Sob Influência vive uma crise mais prolongada. Diferente de Faces, John Cassavetes se debruça sobre o proletariado. O marido (Peter Falk) trabalha em um estaleiro, onde surge um imprevisto, impedindo-o de encontrar com a mulher (Gena Rowlands), o que vai deflagrar nela um problema emocional que a levará à depressão, à internação, até a volta para casa, onde ela tem a revelar muito sobre si mesma e mais sobre o marido e os demais membros da família.

Como acontece sempre em seus filmes, os cortes são abruptos, há cenas que parecem fugir do écran, em alguns momentos pouco dá para definir o que se passa na tela. Mas isso tudo a serviço do ator, que é surpreendido no meio do gesto e da palavra. Cassavetes é um diretor que se apaga assim, às claras. Faces e Uma Mulher Sobre Influência revelam o dom do gênio, o gênio de levar e deixar-se levar para se revelar sublime por meio de tudo o que é imperfeito. O restante, nos dois filmes, é o reencontro dos casais, ali, sozinhos. No amor e no tédio.

Faces e Uma Mulher Sob Influência
De John Cassavetes
Onde encontrar: Vintage Vídeo
Em exibição: Faces (amanhã, 9/7) e Uma Mulher Sob Influência (domingo), 18h, na Sala Walter da Silveira