Caminho para o Nada é uma parábola sobre a angústia da existência e da criação

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Tygh Runyan interpreta o diretor de cinema Mitchell Haven em Caminho Para o Nada, filme do norte-americano Monte Hellman

Nocaute mesmo é assistir a Caminho Para o Nada (Road to Nowhere), filme com o qual o cultuado Monte Hellman retoma sua carreira de cineasta, passados mais de 20 anos, e espalha dúvidas por todos os poros.

Depois de todas as transgressões que o cinema já viu, da antinarrativa de Antonioni às zonas abissais de David Lynch, Hellman aparece com um filme tão belo quanto complexo que se resolve em variantes de narrativas que só podem levar a algum lugar se vistas como um todo. E com paciência.

Há um recurso de metalinguagem (de filme dentro do filme). Road to Nowhere conta a história de um diretor de cinema que encampa uma produção chamada Caminho Para o Nada.

Há um apelo à natureza do film noir, por meio da tentativa de resgate da história de uma bela mulher chamada Velma Duran.

Há um ou mais crimes.

Pensa-se, em suma, em um mergulho na fogueira de vaidades dos bastidores cinematográficos, à maneira de Robert Altman (O Jogador, 1992) ou dos irmãos Coen (Delírios de Hollywood, 1991).

Mas não é bom ao menos tentar resumir a história do filme. Há tantas subtramas. Tantas voltas e misturas de eixos dramáticos e narrativos que buscar uma explicação para tudo o que acontece na tela pode não render frutos.

E acredito que o diretor defende exatamente isso: ele não faz apenas uma obra aberta, sujeita a inúmeras interpretações, mas quer atritar, a nós, o público, com uma nova maneira de perceber, digerir e distinguir o fato criado do que enfim existe de fato.

Ficção e realidade, portanto, colam na tela em natureza indivisível.

Acredito que Hellman chama a atenção para essa realidade virtual que nos domina e nos impregna de coisas e de artefatos visuais. Estamos na nossa vida e na dos outros.

Encontramos apoio para essa ideia, entre as inúmeras referências do filme, na citação, logo no início, da máxima de O Homem Que Matou o Facínora (The Man Who Shot Libert Valebnce, 1962), de John Ford, sobre a imperiosidade da manutenção da lenda se ela é melhor que a verdade.

Hellman resolve que ambas são iguais. É quase impossível distinguir entre o que é o filme que vemos e o que a equipe de filmagem está produzindo em Road to Nowhere.

Uma sequência é reveladora como metáfora mesmo desse nosso tempo de poder central da imagem. Depois dos crimes, o cineasta segura sua câmera do alto da janela da mansão, como um franco-atirador com um rifle nas mãos, enquanto a polícia que chega, insistentemente, manda ele baixar a arma.

Pode ser difícil acompanhar o desencantado filme de Monte Hellman. Mas a simples tentativa de compreender essa parábola singular sobre a angústia da existência e da criação talvez nos leve a suportar mais a ideia de que estamos, de fato e ficção, em um labirinto sombrio, definido a cada minuto do filme como algo que no fundo vai dar em nada.

Assista ao trailer de Caminho Para o Nada.

Comentário publicado originalmente em novembro de 2011. Atualização: 12.03.2013