Caminho incerto dos ‘capitães’ é o que melhor define filme de Cecília Amado

Capitães da Areia - pontocedecinema.blog.br

João Grande, Professor, Pedro Bala, Pirulito e Gato são os Capitães da Areia de Cecília Amado

Capitães da Areia, filme de Cecília Amado que se aproveita ao máximo do calor, da cor e do sol repousado sobre a Baía de Todos-os-Santos, equilibra-se entre a fidelidade ao romance escrito na primeira fase da carreira do escritor Jorge Amado e a atualização daquele universo dominado por meninos de rua liderados por Pedro Bala, em uma história que está no imaginário de tantos quantos frequentaram, no Brasil, os bancos escolares ao longo de mais de 70 anos do lançamento do livro, em 1937.

A fidelidade vem da opção em manter a história no tempo de uma Bahia provinciana, embora a ação tenha se deslocado dos anos 1930 para os 50, em que o movimento social e econômico se alongava num traço geográfico entre a encosta da antiga Salvador até o alto do Corredor da Vitória, e o mar da baía de Todos-os-Santos. A atualização vem dos elementos estilísticos, como slow e stop motion, utilizados por Cecília à exaustão para inserir um quê de modernidade e atrair a atenção de tantos quantos hoje freaquentam os bancos escolares, mas, perdidos em meio a um leque de sugestões audiovisuais, não têm estímulo para se debruçar e queimar pestanas no original de Jorge Amado.

Para quem já leu o livro ou simplesmente conhece a história, a ideia que vem à mente nos primeiros momentos do filme é: o que será daqueles meninos que conhecem a Bahia como a palma da mão, mostram-se peritos na capoeira e em lutas com outras gangues, ganham as ruas de Salvador praticando assaltos e entram nas casas para delas sair com um troféu – o dinheiro, as joias e demais objetos de valor que logo serão dispensados a preço de banana no mercado negro instalado no então centro comercial da cidade?

Eis o que Cecília quer dizer: do destino de meninos como Pedro Bala, Professor, Dora, Sem-Pernas, Gato, Boa Vida, João Grande, Pirulito, Volta Seca e Barandão. Para isso dispõe no tabuleiro de suas peças colhidas entre centenas de garotos que se candidataram para os papéis e foram preparados em oficinas para dar sentido ao novo Capitães.

Mas o resultado é desigual entre os jovens atores que alternam boas atuações com situações embaraçosas, amparadas, em alguns momentos, se considerarmos os da turma de Pedro Bala os verdadeiros protagonistas do filme, por coadjuvantes em bons momentos, com destaque para Marinho Gonçalves como Querido de Deus, o capoeirista que a um só tempo acolhe os delitos do bando e funciona como o esteio dos desamparados.

O primeiro plano do filme mostra os passos incertos e cambaleantes de um dos ‘capitães’, logo apagados, na areia, pelas ondas do mar. Abre-se um ciclo na Festa de Iemanjá, emoldurado pelo belo momento em que Pedro Bala mergulha para chegar ao balaio onde depositará o espelho que mostra a sua face e lhe pergunta sobre o futuro.

O último plano é o de um balaio que boia incerto no mar, logo depois que aqueles primeiros passos do início do filme, agora já no final, se transformam: não são mais cambaleantes, mas multiplicados, de meninos que correm pela beira da praia para ganhar o mundo. Fecha-se o ciclo. Isso é o que melhor define o Capitães da Areia de Cecília Amado.

JORGE E O CINEMA – Não é dessa vez, com Capitães da Areia, que Jorge, avô de Cecília Amado, campeão entre as adaptações literárias, ganha a grande representação na tela de cinema. Aliás, o autor de Dona Flor e Seus Dois Maridos, romance levado ao cinema por Bruno Barreto, perde para Nelson Rodrigues, que ganhou de Leon Hirszman a irrepreensível adaptação de A Falecida, e, sobretudo, de Graciliano Ramos, que conta com o rigor de São Bernardo, dirigido pelo próprio Hirszman, e Vidas Secas e Memórias do Cárcere, ambos de Nelson Pereira dos Santos.

Há nas adaptações da obra de Amado algo a se desvendar que as impede de alçar voo. E o público se depara quase sempre com a falta de articulação de um filme como Gabriela, dirigido pelo próprio Bruno Barreto no início dos anos 1980, com um Marcello Mastroianni mal se equilibrando entre palavras balbuciadas no papel do Nacib, ou, no máximo, a correção de Dona Flor e Seus dois Maridos e Quincas Berro d’ Água, este de Sérgio Machado. Mas nunca a apreensão, representação e transfiguração, com economia de resultados, do texto escrito em imagens em movimento que fazem de um Vidas Secas, por exemplo, uma das melhores adaptações literárias já feitas para o cinema.