Bicicleta é metáfora para busca por sentido e direção no filme dos Dardenne

O Garoto da Bicicleta - pontocedecinema.blog.br

Thomas Doret e Cécile de France em O Garoto da Bicicleta, dos irmãos Dardenne: rito de passagem

O Garoto da Bicicleta, novo filme dos irmãos Dardenne, que ganhou o Grande Prêmio do Júri no último Festival de Cannes, tira um pedaço de nós quando o assistimos. É assim como ver Ladrões de Bicicletas pela primeira vez. Certo que não há aquela comoção toda: o filme de Vittorio De Sica, realizado em 1948 (há mais de 60 anos, portanto), tem um perfil sentimental que não se pode aplicar ao cinema de corte seco dos cineastas belgas.

Inventor de um tipo de melodrama social, no entanto, sem concessões baratas, De Sica denuncia as consequências da guerra entre o proletariado italiano. Quando o último plano mostra pai (Lambberto Maggiorani /Antonio Ricci) e filho (Enzo Staiola/Bruno) sumindo em meio à multidão, depois do sofrimento e périplo pela cidade em busca do veículo roubado, que proporcionaria o ganha-pão da família, vemos que estamos ali diante de um filme sobre a solidariedade. A solidariedade do menino, apenas, para com o pai.

Porque todos os demais, sobretudo a polícia, o clero e os fieis da igreja onde se distribui a sopa para os mendigos e necessitados, por ironia, vão ficar indiferentes ao clamor agudo de Antonio e Bruno por sua bicicleta. A despeito de toda a força do pai, é da determinação de Bruno, que não se economiza na marcha ao lado de Antonio, revelada inútil, que se alimenta essa obra-prima na indicação de que daquela criança será feito um homem, não obstante a dor e o choque do primeiro momento.

Ladrões de Bicicletas é marcado por uma iniciação e um rito de passagem dolorosos pela infância. Uma experiência, enfim, semelhante à de Cyril (Thomas Doret), o garoto obstinado do filme dos irmãos Jean Pierre e Luc Dardenne, que quer reaver sua bicicleta e reencontrar o pai que o abandonou. É uma metáfora, então, essa busca que se resume numa procura por sentido e direção, que ele só vai ganhar quando se deparar com a cabeleireira Samantha, interpretada por Cécile de France.

Poderíamos sinalizar com muitos momentos de grande cinema em O Garoto da Bicicleta. Mas basta falar apenas de dois deles. O primeiro, quando Cyril, na tentativa de fugir dos agentes do reformatório, se precipita sobre mesas e cadeiras de uma clínica médica e cai sobre uma mulher – que logo depois vamos saber que é a cabeleireira -, a quem se agarra no chão, em desalinho, mas em absoluta evidência da necessidade de comunhão, de afeto.

O segundo grande momento revela-se dois tempos depois. Cyril recebe de volta a bicicleta, resgatada pela pela mulher que a comprou do homem a quem o pai do garoto vendeu. Trata-se de um plano-sequência: o menino recebe o presente, dá voltas com a bicicleta, circunda Samantha, enquanto ela conversa com o agente, mas parte em disparada atrás da mulher, logo a seguir, até parar o carro e perguntar se ela quer cuidar dele.

Samantha reorganizará o menino nessa jornada de pavor. Cyril vai cumprir seu itinerário de iniciação e passagem longe do pai, que lhe é indiferente. Em caminho de pedras, de revolta, rumo à deliquência, que ele mesmo escolhe, custa a fazer o caminho de volta. Mas um dia ele vai encontrar a direção a tomar com sua bicicleta. E então se fecha esse conto moral, que será definidor do caráter do menino como foi para Bruno o filme de Vittorio de Sica.