Bahêa Minha Vida, um filme para ver além da paixão

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Embora seja um filme de fã, Bahêa Minha Vida, de Marcio Cavalcante, não é feito exclusivamente para os fãs

Post atualizado em 14/8/2012.

Se o filme é sobre futebol é porque há uma paixão. E se há uma paixão, ela diz respeito apenas aos apaixonados, certo? Errado. O desafio é: como se desprender da febre, do apego, do sentimento arrebatador – e até mesmo do fanatismo – e assistir a um filme como Bahêa Minha Vida mesmo sendo torcedor do Vitória, do Corinthians, do Flamengo, do São Paulo ou vá lá que time seja? É só pensar em uma outra paixão: o cinema.

Bahêa Minha Vida, filme de Marcio Cavalcante, arrebata o público baiano desde a estreia, em outubro de 2011, quando os torcedores invadiram as salas de cinema com suas camisas coloridas, seus apitos e gritos de “Bora Bahêa” e “Bahêa minha porra”. Trata-se de uma performance extratela, que lembra – e talvez encontre ali sua origem – o aclamado e transgressivo Rocky Horror Picture Show, realizado em 1975 por Jim Sherman.

Assista ao trailer do filme.

O filme inglês estreou, foi um fracasso de bilheteria, mas, uma vez permanecendo em cartaz nas sessões da meia-noite, arrebatou milhares de fãs que não apenas frequentavam as sessões, mas participavam delas, iam vestidos como os atores, cantavam as músicas do filme e repetiam falas e diálogos inteiros. O sucesso aumentou e as performances dos fãs dentro das salas de cinema se repetiram como em um processo viral mundo afora, com sessões programadas pelas galerinhas que se reuniam em frente à tela e tiravam o maior sarro, com as cenas de horror, sexo e rock’n’roll.

Em Salvador, Rocky Horror Picture Show só foi exibido mais de cinco anos depois da estreia na Inglaterra. Em grande parte, o espetáculo se restringiu à tela. O que os torcedores do Vitória, do Corinthinas, do Flamengo, do São Paulo e demais times podem fazer é o mesmo que o público baiano fez quando da exibição do filme de Jim Sherman em Salvador. Assistir a Bahêa Minha Vida e tentar enxergar nele, além daquela paixão toda, do gesto insano e do amor desmedido, os erros, os acertos.

Aliás, os acertos são muitos. Os erros, que talvez não sejam nem mesmo erros, poderíamos dizer que são veniais. Afinal de contas, ninguém vai querer que um filme de fã mergulhe de cabeça nas perdas (que, no caso do Bahia, não são poucas) do universo retratado. Marcio Cavalcante não deixou de representar, ali, os anos em que o Esporte Clube Bahia caiu, caiu, caiu, a tragédia da Fonte Nova, o desepero diante da crise. Isso, com certeza, não poderia faltar. Mas o que salta aos olhos, mesmo, são os anos de glória. A criação do Bahia, em 1931, os títulos nacionais de 1959 e 1988. A reunião dos craques de 59 que não se viam há anos, o gesto abrupto, as frases carregadas de amor e excesso.

Bahêa Minha Vida é um filme que permanece longe da excelência dos grandes. Para aspirar o máximo teria que abdicar de sua natureza e ser desmedido na abordagem de todas as contradições que cercam a paixão, sobretudo a paixão pelo futebol. Embora seja um filme de fã, não é feito exclusivamente para os fãs. A prova disso está em seu resultado eficiente, na produção sofisticada, no cuidado com a fotografia e a montagem: o corte cinematográfico mantém-se no equilíbrio, no controle dos tempos, do excesso e do fanatismo. Mesmo assim Bahêa Minha Vida está ali, colado na emoção. E isso não é pouco.