Duas cenas, dois barcos e duas maneiras de encarar o crime

Aurora - pontocedecinema.blog.br

A clássica cena do bote em Aurora, de Murnau

Compartilho dois grandes momentos do cinema: minhas impressões sobre as cenas do bote em Aurora, de Murnau, e Um Lugar ao Sol, de George Stevens:

 

Aurora (Sunrise, 1927), de F. W. Murnau, controvertido cineasta alemão que, depois de dirigir obras-primas como Nosferatu (1921/22), em seu país, migrou para os Estados Unidos, onde fez quatro filmes antes de morrer. O primeiro deles é este, que traz a cena do bote em que o marido provinciano interpretado por George O´Brien pensa em matar a esposa (Janet Gaynor), depois de conhecer uma mulher da cidade.

São momentos antológicos, em que se destacam:
1. A aura premonitória marcada pela ação do cão, que se desprende da corrente, salta uma cerca e se atira na água parar ir ao encontro do casal que acabara de sair na embarcação;

2. A exaltação à natureza, em contraposição à atmosfera taciturna que acompanha as sequências, descrita, dentre inúmeros elementos que compõem as cenas, pelo voo dos pássaros;

3. A fragilidade da mulher, que é toda ingenuidade e carinho para com o cachorro, mas é como que tomada por um surto, um pressentimento, ao ver o homem devolver o animal à terra;

4. A presença sorumbática de O’Brien a evocar o próprio Nosferatu a todo momento e, sobretudo, quando vai matar a esposa;

5. A virilidade do homem ao remar para a terra e a fuga alucinada da mulher – enfim, conduzindo a outro plano (que não é contemplado pelo trecho destacado em vídeo) em um deslocamento atmosférico do filme para momentos de beleza, magia, sinceridade, humor e encantamento, que levam à harmonia entre os que se amam.

Um Lugar ao Sol - pontocedecinema.blog.br

Um Lugar ao Sol: referência de Stevens a Aurora

Um Lugar ao Sol (A Place in the Sun, 1951), filme que George Stevens dirigiu pouco antes de protagonizar talvez o seu melhor momento no cinema, Os Brutos Também Amam (Shane, 1953), traz Montgomery Clift na pele de um provinciano que vai trabalhar na fábrica do tio rico, mas engravida a colega de trabalho interpretada por Shelley Winters e desiste de casar com ela ao se apaixonar pela rica Angela Vickers, interpretada por uma glamourosa Elizabeth Taylor.

Notem a cena do barco, em que Clift pensa em matar Winters, que não sabe nadar, afogada. E sintam a mesma atmosfera de Aurora, com o diálogo, a troca de olhar entre homem e mulher e, enfim, a transfiguração do ato. A partir daí, Um Lugar ao Sol toma caminho diverso de Aurora, já que todos os indícios levam à culpa. Stevens anuncia a fatalidade pelo surto premonitório da mulher interpretada por Winters, em contraposição à personagem de Gaynor.

AURORA é baseado no conto Viagem a Tilsit, do escritor alemão Herrman Suderman. Murnau, além de Nosferatu (expressionismo alemão em sua quintessência) e Aurora, dirigiu obras fundamentais como Fausto, A Última Gargalhada e Tabu.

UM LUGAR AO SOL é baseado no livro Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreiser. Stevens, diretor de grandes filmes, e não apenas este e Shane, mas títulos como Assim Caminha a Humanidade e O Diário de Anne Frank, mostrou-se, com esta citação à cena do bote de Aurora, um pós-moderno “avant la lettre”, como dizem os franceses.

Aurora
Titulo original: Sunrise: A Song of Two Humans
Duracao: 90 minutos
Versátil

Um Lugar ao Sol
Título Original: A Place In The Sun
Duração: 122 minutos
Paramount