As reações surpreendentes do público a propósito de Cópia Fiel

O cineasta iraniano Abbas Kiarostami, diretor do filme

Fui ver Cópia Fiel na primeira sessão do Unibanco Glauber Rocha, num fim de semana. Tão intrigante quanto se você estivesse assistindo a um filme dirigido ao mesmo tempo por Alain Resnais e Michelangelo Antonioni, com sobras de Orson Welles. Ao final, uma mulher não parava de rir enquanto os créditos do filme subiam.

Achei ótimos, Cópia Fiel e e as manifestações de surpresa do público. Preferi o filme, é claro, e ficar refletindo sobre aquilo tudo, de uma leveza e sinceridade desconcertantes. Abbas Kiarostami é um inquiridor, ele investiga o que, definitivamente, é linguagem cinematográfica.

É um prazer estar agora em uma cidade que exibe simultaneamente filmes laureados no festival de Cannes do ano passado, entre eles, Cópia Fiel, Tio Bonmee, que Pode Recordar Suas Vidas e Poesia. Um prazer, mas ao mesmo tempo uma decepção: a certeza de que continuamos ainda provincianos e só vemos filmes europeus, asiáticos… (e que filmes erupeus e asiáticos!) com atraso inexplicável de um ano.

A mulher, com certeza, sentiu o impacto de algo tão imprevisível quanto o filme de Kiarostami. Legal isso. Mostra que a emoção e a reação surpreendente, tão carcterísticas de tempos idos, ainda estão presentes entre nós, nos cinemas.

TENSÃO – Lembro de quando assisti a Psicose, de Alfred Hitchcock, pela primeira vez, no final dos anos 70, um garoto, no Cine Tamoio. Ao final da sessão, as pessoas saíram tontas, quase se batento.

Assistir a O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, no antigo cine Glauber Rocha (o hoje Unibanco Glauber Rocha), foi um prazer à parte, alem de ver, depois de anos de censura, a obra-prima que é O Império dos Sentidos, repito. Quanto mais o tempo passava, e os homens que estavam na plateia percebiam que aquilo era uma sessão de gozo extremo, com requintes de crueldade, e que quem seria servido cru, ali, não era a mulher… Eles ficaram loucos.

Pois é. Não deixem de ver Cópia Fiel, Tio Boonmee e Poesia. Não é porque sejam filmes europeus e asiáticos. Mas é porque valem realmente à pena. Pelo menos duas sessões de cada um deles. São mil vezes melhores do que qualquer um dos filmes que concorreram ao Oscar este ano. E que já vimos, com sobras, quase simultaneamente à premiação mais badalada do mundo. Mas, se liguem, o próximo Festival de Cannes vem aí. Acontece agora em maio.

Quando falo de Cópia Fiel , e menciono Resnais, lembro particularmente de Hiroshima, Meu Amor, O Ano Passado em Marienbad e Meu Tio da América; de Antonioni sobram referências de A Noite e O Passageiro: Profissão Repórter. De Welles, F For Fake – Verdades e Mentiras.