As noites de Ettore Scola e Fellini em Que Estranho Chamar-se Federico

 

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Morto na terça (19), Scola resgata gênio do cinema em filme que é também relato de sua trajetória Foto: Divulgação

Que Estranho Chamar-se Federico - Scola Conta Fellini está longe de ser um relato de paixão exacerbada pelo mais famoso cineasta italiano de todos os tempos. Ettore Scola, o diretor, nesse misto de ficção e documentário lançado em 2013, no Festival de Veneza, revê a trajetória de Federico Fellini com emoção contida, traçando um paralelo com sua própria carreira, embora menos conhecida, de pontos culminantes e conciliáveis com a vida e a obra do diretor de A Doce Vida (1960).

O filme nasceu da necessidade de Scola, amigo de juventude de Fellini, homenagear o companheiro que morreu em outubro de 1993.  Che Strano Chiamarsi Federico chegou à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo alguns meses depois de Veneza. Há registros de que o cineasta ralhou por causa da comoção exagerada na Itália. O filme surpreendeu sobretudo por ser dirigido por alguém que, com mais de 80 anos, já se pensava aposentado (o último filme de Scola datava de 2003, Gente di Roma), mas foi capaz de estabelecer este elo singular.

Epifania felliniana
Nada pode ser mais eloquente  do que um filme sobre o mestre da magia e do sonho que se recusa  a ser logo de cara um inventário das imagens oníricas e burlescas, associadas à irrepreensível música de Nino Rota, imaginadas por Fellini. Que Estranho Chamar-se Federico guarda a epifania felliniana para depois. Antes, o espectador terá que se ater ao modelo de representação de Scola, um cultor da escola realista e social Ele chegou ao jornal humorístico semanal Marc’ Arelio no final dos anos 40, procedente de Trevico, quase 10 anos depois que Fellini, um nome que já admirava, deixou a sua inesquecível Rimini.

O filme começa com a chegada de Fellini a Roma, em 1939, para trabalhar como ilustrador do semanário italiano. E se concentra naquele miolo dos anos 40, entre as histórias, quadrinhos e caricaturas do Marc’ Aurelio, o teatro de revista de Aldo Fabrizi, a colaboração com Roberto Rossellini, até chegar aos primeiros registros de Fellini como diretor, nos anos 50: Mulheres e Luzes, Abismo de Um Sonho, A Estrada, Os Boas Vidas. Um pouco antes, Scola entra na vida do cineasta como diagramador do semanário, e somente depois, a partir dos anos  1960, inicia carreira promissora no cinema como diretor.

Esta é a parte ficcional do filme, que se mantém assim, sem filtro, em um registro singelo sobre o início da carreira dos dois cineastas em Roma, para depois alternar-se em sua recriação da história com depoimentos  e, sobretudo, o resgate da memória do diretor de Um Dia Muito Especial. Scola vai buscar no fio do tempo lembranças como a de um Fellini que vagava pela madrugada, insone, dirigindo  pelas ruas de Roma, conversando com gente do povo, prostitutas, para criar alguns dos momentos mais belos e inspirados, um indício da origem da inesgotável criatividade do autor de Amarcord (1973).

Casanova
O diretor mostra como convenceu o cineasta a fazer uma participação em Nós Que Nos Amávamos Tanto (1974), um dos mais célebres de seus filmes, e os pontos de contatos entre o Casanova de Fellini, de 1976 -  que estranhamente não contou no  papel título com Marcello Mastroianni,  seu ator-fetiche – e La Nuit de Varennes (Casanova e a Revolução), de 1982, recriação do episódio da prisão do rei Luís XVI, logo depois da Queda da Bastilha, à luz do conquistador europeu, agora, sim, interpretado por Mastroianni. Aliás, é sobre Casanova de Fellini que o filme de Scola revela uma de suas mais incríveis curiosidades: a presença de grandes atores no set fazendo testes para interpretar o papel-título, que acabou nas mãos de Donald Sutherland.

Relato sincero, feito sem falsa modéstia por um grande cineasta que faz também seu testamento cinematográfico e não se esquiva a brandir seu nome ao lado de um gênio, Que Estranho Chamar-se Federico é um filme  incomum. Reconstrói o passado com uma narrativa inventiva, marcando lugar no presente. Fala pouco da eterna musa de Fellini, Giulietta Masina. Talvez sua maior referência seja  o atípico Entrevista, de 1987, pseudodocumentário em que o gênio assume a veia memorialista já evidente em tantos filmes ficcionais e recompõe sua trajetória nos estúdios da Cinetittà,  personagem à parte neste Che Strano Chiamarsi Federico.