O tempo distendido em Os Cavalos de Goethe

Os Cavalos de Goethe - pontocedecinema.blog.br

Os Cavalos de Goethe, filme dirigido por Arthur Omar, foi exibido, ontem, no CineFuturo

Os Cavalos de Goethe, exibido na noite de ontem (27/7) no CineFuturo, não é para grande público. Aliás, a arte de Arthur Omar sempre denunciou isso. Talvez escaldado da apresentação do filme no festival É Tudo Verdade, em abril último, em São Paulo, quando várias pessoas deixaram a sala de exibição, Omar tenha se estendido nas explicações em Salvador, o que motivou alguma reclamação do público no TCA e a interrupção da fala do cineasta.

Sim, Cavalos de Goethe é um filme que precisa de bula, por sua natureza experimental e porque houve situações extras, impossíveis de serem detectadas no filme, importantes para a fruição. Mas nada impede que o espectador se deixe levar pelo sentido e curta até o final aquelas belas imagens dos Cavaleiros de Buskashi, do Afeganistão, filmadas em 2002, com suas mais variadas associações, que vão da fase inaugural do cinema, com A Chegada do Trem na Estação, de Louis Lumière, a Meu Ódio Será Sua Herança, de Sam Peckinpah, passando pela pintura de Delacroix e o trabalho do fotógrafo inglês Muybridge, famoso pela experiência pioneira na utilização de várias câmeras para captar o movimento.

Mas Omar estava explicando justamente isso – e que fez a viagem ao Afeganistão, onde permaneceu por três semanas, para a Bienal de São Paulo, com a missão de trazer um pedaço do Buda destruído pelos Taliban –, quando foi interrompido. O buskashi é um curioso e violento jogo que mobiliza cavaleiros do Afeganistão pela disputa da carcaça de um bode, preparada especialmente para aquela ocasião. Omar filmou uma pequena parte do jogo, o que resultou em Os Cavaleiros de Goethe, um documentário que nada tem a ver com os registros que normalmente conhecemos como documentário – um ensaio de 70 minutos provocador, no sentido em que mexe com o conceito, imposto como razoável, de narrativa formal à qual o público já se acostumou.

O slow motion, dilatando o tempo à exaustão, focando em mãos, cabeças, cavalos, com manifestações de surpresa e encantamento do público, nos conduz em um caminho de hiperrealidade, em fusão com imagens de trilhos, trens e estações, permeado pela voz do ator britânico Alec Guinness recitando T. S. Eliot e por uma música que vai buscar o fundo dramático, em um crescendo com as imagens, que nos é tirado pelos recursos de câmera lenta.

A ação me remeteu imediatamente às monumentais sequências de batalha em que Akira Kurosawa não se limita a registrar, mas a investigar, com lupa desoladora, a lenta queda, agonia e sofrimento não apenas dos cavaleiros, mas dos cavalos, em Kagemusha – A Sombra do Samurai. Impactantes, mesmo, os momentos finais de Arthur Omar, com a imagem de um cavalo refletida em um muro no momento da passagem de um trem, nos subtraindo daquela ideia de tempo distendido que atravessa o filme todo. Algo impressionante se processa na arte desse fotógrafo, artista plástico e cineasta Arthur Omar.