“Aquarius pode ser interpretado como uma metáfora do Brasil”, afirma Kleber Mendonça Filho

 

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"A comunicação está tão quente que criou até mais discussão e gerou mais energia para o filme Foto: Divulgação

O diretor de Aquarius falou com o A Tarde sobre o filme, as polêmicas e próximos projetos. Confira abaixo:

P – Como O Som ao Redor, Aquarius tem no centro de referência a temática urbana em meio a personagens de classe média. Podemos dizer que a história surgiu de seu longa anterior, O Som ao Redor?
R – Não, eu acho que vem naturalmente de temas que já estavam embutidos em outros filmes, inclusive em O Som ao Redor. O Som ao Redor já tinha uma cena importante, onde uma casa morta estava para ser demolida, que é uma sequencia importante do filme. Recife Frio, que é um curta de 2009, é um filme sobre o espaço urbano. Tem um vídeo que eu fiz em 94 que se chama Paz a Esta Casa, sobre a demolição de uma casa. São várias ideias que já existiam. Meu projeto de formação em jornalismo, em 1992, foi sobre cinemas de bairro, que já tinham fechado, no Recife. Essa coisa do espaço arqueológico, da ruína, do espaço do prédio, do edifício e da construção, que agregue a memória e a história, é uma coisa que me toca muito, e aí meio que leva a Aquarius. A indústria de construção, de empreiteiras, o trabalho delas é construir. E como elas  fazem parte de um mercado voraz, elas constroem de maneira voraz. E toda vez que elas constroem elas têm que destruir. Então, numa sociedade como a brasileira, onde existe  uma cultura muito forte de corrupção, é muito fácil entender que construtoras constroem e terminam tendo o papel de mudar de uma maneira muito bagunçada e selvagem a cara de uma cidade. Com isso, leva-se a historia, levam-se referências afetivas e principalmente transforma-se a  cidade num lugar não muito comunitário, não muito  humano.

P – As relações familiares, de classes estão muito evidentes em filmes brasileiros do momento como Casa Grande e Que Horas Ela Volta? Acredita que existe de alguma forma um diálogo entre esses e Aquarius e O Som ao Redor?
R - Acho que eles dialogam totalmente com esses filmes, porque na verdade é uma geração  de novos nomes. É uma geração de cineastas, talvez com a exceção de Anna [Muylaert], que 12 anos atrás já tinha feito Durval Discos, seu primeiro filme, mas em geral é uma geração nova que está olhando para outras coisas. Se a gente  pensar no cinema brasileiro até os anos 90 ou o cinema brasileiro que tinha um leque de temas que meio que se repetia. Se você pegar Marco Dutra, Juliana Rojas, Anna Muylaert, Fellipe Barbosa, Bruno Safadi, Gabriel Mascaro, Marcelo Pedroso, Leonardo Lacca, Daniel Lisboa, em Salvador, são cineastas que estão olhando para outras coisas agora, talvez mais o espaço urbano. Décadas atrás, filmes de cidades geralmente eram de São Paulo. Filmes do Nordeste eram filmes folclóricos, rurais, sobre a seca ou sobre o sertão. Você vê Casa Grande, é um filme muito íntimo de uma família, você saca que só há uma possibilidade, que esse diretor está falando da família dele, suspeita-se. A mesma coisa com Anna com Que Horas Ela Volta? É um filme de uma pessoa que claramente fez observações específicas sobre a vida em sociedade no Brasil dentro de casa.

P –  Como você chegou a Sonia Braga para o papel de Clara?
R –
Inicialmente, quando eu estava escrevendo o roteiro, eu tive a ideia que obviamente não faz muito sentido, que era descobrir uma mulher desconhecida, que não fosse atriz, e convencê-la a fazer teste. Mas essa ideia se transformou numa grande bobagem. Eu vi que não tinha sustentação. Numa reunião de sexta à noite lá em casa, Pedro Sotero, que é um dos fotógrafos do filme, sugeriu Sonia Braga e eu vi imediatamente que era uma grande ideia. A  gente fez o roteiro chegar nas mãos dela, ela respondeu também imediatamente e foi assim que Sonia entrou no processo.

P – Clara não se submete à especulação imobiliária. Na intimidade dela ela acaba desenhando um filme de resistência. Você acha que faz um cinema político, na essência?
R – Na essência, não. O filme se passa em pequenos conflitos da vida real, da vida em sociedade, da vida em condomínio, da vida na rua, e aí as situações efetivamente se transformam em inquietações políticas. Quando Clara entra em confronto com Diego [personagem de Humberto Carrão], na garagem do edifício, aquilo poderia ser apenas um barraco entre dois vizinhos, mas termina se transformando numa discussão que não deixa de ser política. Na verdade, a partir do momento em que ela diz não à construtora, isso já se transforma num ato político. A sociedade está tão dominada por um conjunto de regras e ideias preestabelecidas que quando você faz pequenos gestos (eu lembro muito do protesto que a gente fez em Cannes) imediatamente se tornam um ato político. Ontem comentaram comigo que quando Clara se refere ao filho dela – ela tem um filho gay,  e ela diz: “Você sabe o que é se sentir louco sem estar louco” –, isso vira um ato político numa sociedade que pra início de conversa é homofóbica. São pequenos detalhes assim que fazem o filme ter essa leitura política, mas eu não tenho interesse em fazer um filme que se passe nas esferas… na Câmara de Vereadores, no Congresso Nacional, que aí se constitui em um filme político.

P – Indo para o final do filme, você mostra reação de uma pessoa sob pressão. Acha que aquilo pode ser considerado uma metáfora do Brasil atual?
R – Acho que o filme inteiro pode ser interpretado como uma metáfora do Brasil, da vida em sociedade. O filme tem tido uma aceitação muito grande fora do Brasil também. A estrutura de mercado, ela pertence ao mundo inteiro, da Rússia ao Havaí, Argentina, África. As pessoas entendem essa lógica de mercado. Ela não faz sentido. Eu até acho que o capitalismo poderia funcionar se não tivesse esse fator de ganância tão grande. Tem regras, tem metas a cumprir. Essas metas é que eu acho que meio que acabam com a ideia de como funciona o capitalismo.  Essa reação final do filme é uma explosão. A reação dela é física, catártica, ela precisa mostrar que exige respeito. Estou muito espantado com a reação da maior parte das pessoas com o final. Um final que parece pegar as pessoas de uma maneira muito forte.

P – Fora o filme, vocês têm tido uma atitude de resistência. Com o protesto em Cannes, com a indicação da comissão para a escolha do filme que vai representar o Brasil no Oscar e agora com a classificação indicativa fixada em 18 anos. Você acha que essa postura de algum modo prejudicou em Cannes. E vê a possibilidade de que o filme, uma vez indicado para representar o Brasil no Oscar, possa ser prejudicado por , digamos assim, uma visão conservadora da Academia?
R – Eu não  sei o que vai acontecer, mas em relação a Cannes eu não tenho nenhuma informação de bastidores de que houve qualquer tipo de retaliação do júri, por causa do protesto. A premiação de Cannes este ano foi muito peculiar e muito criticada. Aquarius está dentro de um grupo de filmes incrivelmente bem-recebidos que  não levaram nenhum premio. Então, eu não vejo nada nesse sentido em Cannes. Em relação ao Brasil, é claro que depois da inclusão de uma pessoa [Marcos Petrucelli] que tem sido feroz e infantilmente contra a atitude de protesto da equipe e vive espalhando mentiras e calúnias sobre a gente em Cannes, que a gente tinha ido tirar férias em Cannes, o tipo de argumento completamente estúpido de quem realmente não tem nada na cabeça, e ainda assim uma pessoa dessa ser escolhida para compor a comissão do Oscar, parece um constrangimento que a Secretaria do Audiovisual poderia ter evitado para si própria. Eu não tenho nada contra o resto da comissão. Por mim, são todos profissionais da cultura, tudo certo, mas esses ataques aí fazem dessa pessoa alguém inadequado, eu acho, para a função, que é uma função inclusive oficial. E sobre a classificação 18 anos, ela é extremamente suspeita. Se você pegar filmes recentes que foram 14, 16 anos, Boi Neon, Bruna Surfistinha, Tatuagem. Eu acho que é algo que não faz sentido e me parece extremamente suspeito, uma forma de tentar neutralizar o filme, mas obviamente a comunicação está tão quente que criou até um ponto de mais polêmica e discussão e gerou mais energia para o filme.

P – Já tem algum novo projeto engatilhado para depois do lançamento de Aquarius?
R – Estou trabalhando no Bacurau, que é o próximo filme, uma espécie de ficção científica que se passa daqui a alguns anos no interior de Pernambuco. Esse filme eu vou codirigir com Juliano Dornelles, um grande colaborador. Inclusive em Aquarius ele fez a direção de arte. E a gente espera filmar no início de 2017.