Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, estreia com clima de enfrentamento até fora da tela

Filme  com orçamento de R$ 3 milhões chega a 80 salas de cinema do país
envolto em polêmica sobre sua provável representação do Brasil no Oscar
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Sonia Braga interpreta Clara, a dona de um apartamento que não cede à especulação imobiliária Foto: Divulgação

Aquarius estreia nesta quinta-feira em 80 salas do país sob controvérsia, confirmando um destino traçado première mundial em Cannes, no último mês de maio, quando a equipe presente no mais importante festival de cinema do mundo empunhou cartazes manifestando-se contra o processo de impeachment da presidente Dilma Roussef.

Enquanto a crítica internacional inclina-se às indiscutíveis qualidades técnicas e artísticas de Aquarius,  o novo filme de Kleber Mendonça Filho, orçado em R$ 3 milhões, está no centro de uma queda de braço que envolve a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e o próprio cineasta pernambucano, por conta da escolha do representante do Brasil que disputará uma vaga no Oscar 2017.

Entre os que fazem parte da comissão que vai definir o indicado, a ser anunciado no próximo dia 12 de setembro, está o crítico Marcos Petrucelli, que fez críticas a Kleber e ao filme por conta da manifestação em Cannes e foi mantido no posto pelo secretário do Audiovisual, Alfredo Bertini, mesmo depois das alegações do cineasta.

“É claro que depois da inclusão de uma pessoa que tem sido feroz e infantilmente contra a atitude de protesto da equipe e vive espalhando mentiras e calúnias sobre a gente em Cannes, ainda assim uma pessoa dessa ser escolhida para compor a comissão do Oscar, parece um constrangimento que a Secretaria do Audiovisual poderia ter evitado”, afirma Mendonça Filho a A Tarde.

Para o cineasta, a classificação indicativa de Aquarius para maiores de 18 anos, fixada pelo Ministério da Justiça, também é “extremamente suspeita”, se comparada aos recentes que estiveram entre os 14 e 16 anos, como Boi Neon, Bruna Surfistinha e Tatuagem. “Parece uma forma de tentar neutralizar o filme, mas isso virou mais um ponto de polêmica e discussão e gerou mais energia para Aquarius”, diz.

Por conta de toda essa polêmica e por não reconhecer a legitimidade da comissão, os cineastas Gabriel Mascaro (Boi Neon), Anna Muylaert (Mãe Só Há Uma) e Aly Muritiba (Para Minha Amada Morta) retiraram a inscrição de seus filmes. E a atriz Ingra Liberato e o cineasta  Guilherme Fiuza Zenha se desligaram da comissão, sendo substituídos respectivamente por Carla Camurati e Bruno Barreto.

Sonia Braga interpreta Clara, a sexagenária jornalista e escritora dona de um apartamento no edfício Aquarius situado à beira-mar, no bairro da Boa Viagem, no Recife, que resiste à investida de uma construtora para que venda o imóvel. O prédio, desocupado pelos outros moradores, deve ser destruído para dar lugar a um empreendimento.

O filme é o segundo longa de ficção de Kleber Machado, que ganhou fama internacional com O Som ao Redor (2012). Diretor do também longa documental Crítico (2008), com Aquarius Kleber solidifica um traçado narrativo evidenciado com o curta Recife Frio (2009), em que lança um olhar sobre as transformações sofridas pela capital pernambucana, marca que também aparece na filmografia dos também pernambucanos Gabriel Mascaro (Um Lugar ao Sol) e Marcelo Pedroso (Brasil S/A).