Andrzej Wajda filma perseguição a artista na Polônia sob o regime soviético

Cineasta morto em 2016 despede-se com Afterimage, cinebiografia de um dos mais importantes artistas da vanguarda europeia

Boguslaw Linda interpreta o pintor Wladyslaw Strzeminski em Afterimage

Afterimage é uma imagem que se forma e persiste depois da observação original do objeto.  A explicação está logo no início da cinebiografia do pintor Wladyslaw Strzeminski (1893 – 1952), com a qual Andrzej Wajda (morto em 2016, aos 90 anos) encerrou a carreira.

Um dos maiores cineasta poloneses, Wajda poderia fazer da ideia um recurso para sobrepor um exercício de estilo vigoroso, visto em um breve, belo e fundamental momento logo no início do filme. É quando um grande painel com a imagem de Joseph Stálin desce em frente à janela do apartamento de Strzeminski e tinge o ambiente e a tela do artista e do próprio Wajda de vermelho.

Mas o que segue, longe do esteticismo desenfreado, é um relato contundente ao tempo que singelo e soturno pelo que contém de plausível tanto na representação íntima quanto histórica, ao acompanhar a trajetória de um dos nomes referenciais da vanguarda europeia em período imediatamente posterior à Segunda Guerra.

Com braço esquerdo e perna direita  amputados, combatente na Primeira Guerra, Strzeminski se posicionou ao lado da Revolução Russa de 1917, mas agora, em 1948,  mantém-se firme contra  as restrições culturais impostas à Polônia, que inclui a exigência do engajamento dos artistas ao realismo soviético.

Strzeminski, em ótima interpretação de Boguslaw Linda,  foi um dos criadores do Museu de Arte Moderna do país. Professor da Escola de Belas Artes da Universidade de Lodz – a mesma da famosa escola de cinema que formou Wajda e outros grandes cineastas, como Polanski e Kieslowski  –,  sofre então um processo de anulação nas mãos do sistema.

Sem emprego, em privação com a família, impedido de ensinar e até de comprar tinta, ele é lançado ao anonimato, oprimido pelo sistema a ponto de ver negada a própria existência.

Universo próprio

O tema é caro à arte de Wajda, que criou um universo característico com a observação de seu país sob a ocupação nazista e a partir da intensificação do poder soviético no período imediatamente posterior à Segunda Guerra.

Sua estreia com a Trilogia da Guerra, formada por Geração (1954), Kanal (1955) e Cinzas e Diamantes (1958), é o exemplo pleno dessa trajetória que encontra também,  em O Homem de Mármore, um dos seus pilares, ao descortinar o  stalinismo por meio de um filme dentro do filme.

Naquele filme de 1976 Wajda introduziu Krystyna Janda na pele da jovem cineasta Agniezka em processo de investigação sobre a vida do operário Mateusz Birkut (Jerzy Radziwilowicz), que, como outros personagens do mestre polonês – inclusive Strzeminski –, é massacrado depois de servir ao regime.

O filme é importante também por somar-se às manifestações que culminaram com o surgimento do movimento Solidariedade de Lech Walesa, em 1980, e por trazer em sua carne uma reflexão sobre o fazer artístico, em exercício de metalinguagem, assim como Wajda fez pelo menos com Tudo à Venda (1968) e  Cálamo (2009).

À semelhança de O Homem de Mármore, em Afterimage Wajda espelha-se na figura de Strzeminski, uma espécie de reflexo das inquietações que ganharam lastro com o  Maciek (Zbigniew Cybulski), de Cinzas e Diamantes, integrante da resistência nazista que recebe a missão de matar um líder comunista.

É bom lembrar que foi o processo de desestalinização que possibilitou o cinema do polonês a ganhar o mundo, a partir dos anos 1950. Como se vê, nada é mais simples: arte e vida, vida e arte, ficção e realidade sempre de braços dados no cinema de Andrzej Wajda.