Andrew Haigh abre um mundo de possibilidades de escolha para Russel e Glen, o casal de Weekend

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Tom Cullen e Chris New interpretam Russel e Glen em Weekend, filme do britânico Andrew Haigh

A propósito do ótimo filme britânico de Andrew Haigh, Weekend, que estreou na última sexta-feira – com Tom Cullen e Chris New como Russel e Glen, dois homens que vivem um romance de dois dias -, não me saem da cabeça O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, Rastros de Ódio, de John Ford, e Os Imperdoáveis e As Pontes de Madison, de Clint Eastwood.

Em Brokeback Mountain (2005), o taiwanês Ang Lee reverencia, ao mesmo tempo que confronta, a magnifica obra de Eastwood no tocante ao revisionismo crítico que o diretor de J. Edgard (2011) fez, com Os Imperdoáveis (1991) e As Pontes de Madison (1995), de dois monumentos do cinema norte-americano – o western e o drama intimista de Hollywood.

Ao mesmo tempo, busca elementos referencias em outro terreno dominado por cowboys machistas, evocando a obra-prima de Ford, Rastros de Odio (1956), no que ela tem de precisa ao demarcar o espaço social destinado ao sujeito heterossexual, no caso, o Ethan Edwards de Johh Wayne, ex-oficial Guerra Civil Americana, que retorna para a casa do irmão.

Em pouco tempo, Edwards vê praticamente devastada pelos índios sua família formada, além do irmão, pela cunhada e duas sobrinhas, e terá que redimensionar a dor e os conflitos, em caminhos tortuosos, mas a casa, a despeito de seu momento errante, lhe será sempre cara, indica o simbólico abrir e fechar de portas do início e do final do filme.

Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger), os cowboys de Brokeback Mountain, ao contrário, não têm lugar. O sentimento mais profundo dos personagens de Ang Lee, diferente do de Edwards, está fora do âmbito social, familiar, da casa, que os afasta para as montanhas.

Cultivada como um segredo, a relação íntima está na liberdade que a exuberância e a naturalidade da montanha Brokeback permitem. Por isso, no final, o drama de Ennis Del Mar cabe apenas dentro de um trailer.

Ele está apegado a uma única camisa que restou de Jack Twist, dependurada no cabide, e à foto da montanha pregada na porta do armário, que também se fecha e descortina a janela aberta, apontando para o não-lugar do sujeito, neste caso, homossexual.

O tempo daqueles cowboys era outro, de 1963 à entrada dos anos 80 – o tempo da luta pelos direitos civis, da revolução sexual e do início de uma devastação. Sobre isso eles parecem nunca se dar conta, presos aos cuidados com as ovelhas na América profunda da fictícia montanha do Wyoming.

Ao contrário, o salva-vidas Russel e o artista Glen, do filme de Andrew Haigh, estão em um pós-tempo de devastação, em que privam da relação com amigos héteros e da intimidade da cama, dos lençóis e da janela do apartamento de Russel, aberta para um mundo.

Um mundo que, como indicam os intermináveis diálogos e a anuência do casal – e apesar dos inflamados -, com certeza, não será o das prostitutas excluídas de Os Imperdoáveis, que querem vingança, nem o da impossibilidade de escolha de Robert e Francesca, de As Pontes de Madison.