Almodóvar faz melodrama brilhante sobre arte, criação e vingança

A Pele Que Habito - pontocedecinema.blog.br

Dr. Ledgard (Antonio Banderas) contempla sua criatura, Vera (Elena Anaya), em recriação do quadro de Ticiano (abaixo)

Vênus e cupido com um organista - pontocedecinema.blog.br

O que se pode dizer de verdadeiro sobre a história de A Pele Que Habito (La Piel Que Habito) sempre cai no vazio. Porque há sempre um fato novo nesse filme que se revela em camadas de ficção científica, suspense, terror e melodrama. Sobretudo melodrama, é como vai se resolver esse 20º longa de Pedro Almodóvar.

Não assistimos apenas a um thriller sobre um cientista maluco que mantém uma moça em cativeiro em uma mansão para testar nela uma pele muito mais resistente que a humana, desenvolvida em experiências com material genético de animais, depois que sua mulher sofreu graves queimaduras em um acidente de carro.

Nem apenas à história do homem que vai tentar punir aquele que acredita que violentou sua filha, uma adolescente com graves problemas emocionais acumulados desde o momento em que, ainda criança, presenciou a mãe atirar-se de uma janela ao ver sua imagem desfigurada refletida no espelho.

Cinema fantástico dos mais absurdos, A Pele Que Habito é um filme que cruza gêneros e desafia o olhar a cada minuto que é visto. O próprio Almodóvar, que se baseou no romance Tarântula, do francês Thierry Jonquet, assumiu em entrevistas suas inúmeras referências, que incorporam do mito de Frankenstein ao cinema noir de Fritz Lang e até mesmo o filme Olhos Sem Rosto, dirigido por Georges Franju em 1960.

Mas a principal delas, acredito eu, está ali, colada como um pedaço de pele na parede, apresentada entre vários quadros meio que de relance em cada instante que os personagens se deslocam de um ambiente a outro da mansão. Vênus e cupido com um organista, uma das obras criadas pelo renascentista Ticiano em torno da deusa do amor e da beleza, dá a dimensão exata do personagem de Almodóvar, para além de sua natureza maligna, em um filme que é mesmo uma alegoria sobre arte e criação, porque o que cientista quer, no íntimo, é chegar ao que acredita como obra perfeita.

Em vários momentos o médico contempla sua arte e há mesmo uma bela recriação cinematográfica do quadro de Ticiano. Mas ele não se dá conta de que o que importa, como verdade, dizia um travesti em Tudo Sobre Minha Mãe (Tudo Sobre Mi Madre, 1999), a despeito dos quilos de silicone que carregava no corpo, são os sentimentos. E é o resgate do sentimento mais profundo de Vera (Elena Anaya), a criatura mantida em cativeiro no laboratório por Robert Ledgard (Antonio Banderas), que finalmente vai nortear, como vingança, esse drama bizarro, pesado, profundo e surpreendente que se define, afinal, como um melodrama brilhante de Pedro Almodóvar.