Álbum de Família, de John Wells, mostra relações familiares em vias de combustão

Álbum de Família - pontocedecinema.blog.br

Meryl Streep e Julia Roberts, mãe e filha em duelo de interpretações em Álbum de Família

O filme Álbum de Família e o dramaturgo norte-americano Tracy Letts, autor do texto original e do roteiro, estão aí para nos dizer que nem todos os verões são de sonhos.

Entre os concorrentes ao Globo de Ouro e candidato a boas indicações ao Oscar, o filme conta com elenco estelar. Meryl Streep, Julia Roberts, Juliette Lewis e Julianne Nicholson estão reunidas em grande duelo, em meio a uma nuvem de ressentimentos, angústias e mágoas em um não-lugar quente e sufocante da América.

Nada enternecedor, o ambiente de Álbum de Família é a metáfora perfeita para aquela teia de relações em vias de combustão que se traduz na família protagonizada sobretudo por mãe e três filhas. Elas se reencontram por força do desaparecimento do patriarca interpretado por Sam Shepard, para quem, citando T. S. Eliot, a vida é muito longa.

O título em português, que não tem nada a ver com o original August: Ossage County, que nos remete ao tempo, ao calor e ao lugar onde se passa a trama, reaviva a memória para a magnífica peça do brasileiro Nelson Rodrigues, sustentada também em torno de uma família em crise, mas corroída pela violência, a paixão e as taras.

No mais um intelectual que como ninguém soube transpor para o teatro e a literatura o moralismo da classe média baixa, reflexo de seu próprio trauma, esqueçamos por ora Nelson Rodrigues, ‘o anjo pornográfico’ brasileiro.

Porque Tracy Letts, que ganhou o Prêmio Pulitzer em 2008 com essa peça que roteirizou para John Wells dirigir no cinema, surge mesmo como um autor que se ancora na linha tradicional de um Eugene O’Neill, um John Steinbeck ou um Tennessee Williams, monstros sagrados da dramaturgia norte-americana.

Títulos como Longa Jornada Noite Adentro, A Leste do Éden (Ou Vidas Amargas), Um Bonde Chamado Desejo e Gata em Teto de Zinco Quente, dentre uma variedade de grandes textos de escritores norte-americanos, mimetizados pelo cinema intimista hollywoddiano, estão aí para nos dizer como esses criadores estão vivos e incandescentes na arte de Letts.

Tracy Letts, guardem este nome, que também escreveu as peças Bug e Killer Joe, dois petardos lançados sobre nossas cabeças em forma de cinema – chamados, no Brasil, respectivamente, de Possuídos e Matador de Aluguel.

Roteirizados pelo próprio Letts, como Álbum de Família, e dirigidos pelo grande William Friedkin, ambos os títulos pairam como dois dos melhores filmes norte-americanos dos últimos tempos.

Pena que o diretor John Wells não percebeu o potencial lança-chamas que tinha em mãos e fez do texto de Letts uma modorrenta narrativa que se arrasta por (cerca de) intermináveis 120 minutos.