Potiche: Esposa Trofeu ou a vingança das Noras

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Catherine Deneuve, ao lado de Gérard Depardieu em Potiche: Esposa Troféu, filme de François Ozon

Por Ceci Alves
No final do século XIX Henrik Ibsen escreveu a peça clássica Casa de Bonecas, na qual ele abria a discussão do papel da mulher na sociedade através da personagem Nora, que era tratada como uma boneca – um objeto inanimado, sem voz nem voto – pelo marido, que a julgava incapaz de compreender as vicissitudes do cotidiano. Mas ela compreendia, sim, ainda que afundada no poço de futilidades para o qual seu “papel de mulher” a impelia. Até que ela virou a mesa, com toques de tragédia em seu destino.

Já Suzanne Pujol, personagem da diva (para usar um termo gasto e surrado) Catherine Deneuve no filme Potiche, também virou a mesa; mas, sob a batuta do diretor François Ozon, a tragédia passou longe e o filme terminou virando uma redenção das Noras. Suzanne também era comparada a um objeto inanimado – a um potiche, que, em francês, significa vaso, um daqueles jarros decorativos que ornam a casa. Um objeto inanimado; portanto, outra existência sem voz ou voto, que está naquela casa para tornar a vida das pessoas que ali residem mais agradável. Pior, ela era o que o subtítulo em português afirma: uma esposa-troféu, para ser exibida e elogiada e que, de quebra, veio com um dote fantástico para a vida de casada – a fábrica do pai.

Nora também era uma esposa-troféu, e também tratada como uma imbecil pelo marido. Ainda em comum entre Nora e Suzanne está a anuência a esta situação, até que algo fora de casa, e que envolve seus respectivos maridos, a tiram da posição de par de jarros. Nora luta, sem que seu marido saiba, para que ele não caia em desgraça financeira; mesmo motivo que leva Suzanne a sair de casa para negociar a vida de seu marido, feito refém na fábrica de guarda-chuvas que ele administrava com mão-de-ferro e unhas-de-fome no fervilhante final da década de 70.

Elas aceitam o papel de potiche até por conveniência: Nora, para ter a situação social marido-filhos tão cobrada pela sociedade; Suzanne abdica de seus sonhos pelo mesmo motivo, mas até que lida bem com essa hipocrisia, com uma escapada aqui e ali, quando conhece o grande amor de sua vida, o ex-operário da fábrica de seu marido e agora deputado-prefeito de esquerda, Maurice Babin, vivido pelo amigo de Deneuve, Gerard Depardieu. A partir daí, os destinos das duas se apartam: Nora é vilipendiada até ser praticamente obrigada a sair de casa e abandonar seus filhos. Já Suzanne, não: ao sair de casa a primeira vez, aproveita a oportunidade para mostrar ao marido e à família quem realmente manda. E se dá a redenção.

Potiche não é exatamente um filme feminista, Ozon não se atreveria. É um filme leve, nos moldes do diretor francês que redesenha a crônica da sociedade francesa com muitas cores, sensações e clichês do canône do cinema clássico para reforçar o timing de comédia ligeira e que tem a pretensão à despretensão. E, como cereja do bolo, a fita tem uma ambientação deliciosa, na alvorada da década de 80 – o filme se passa em 1977 –, com as cores mais pronunciadas graças à direção de arte e uma fotografia trabalhada para se fazer passar por uma produção realizada naquela época.

Por tudo isso, Potiche, que passa hoje no último dia do Festival Variluz de Cinema Francês 2011, às 18 horas, e que estreia nas salas do Brasil no dia 24, mas está de volta neste final de semana em pré-estreia, foi o destaque desta mostra e trouxe ao Brasil a vívida Deneuve para defender o “filme que eu gosto”. É para todos os gostos, para todas as Noras.

Ceci Alves é jornalista e cineasta