A Noite dos Desesperados: uma sociedade em crise

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Jane Fonda, uma das estrelas dos anos 1960/70, em A Noite dos Desesperados

A Noite dos Desesperados é um dos grandes filmes norte-americanos. Realizado em 1969, em período notabilizado por um espírito crítico exacerbado da sociedade, trata de uma extenuante maratona de dança, cujos participantes concorrem a um prêmio de 1,5 mil dólares.

É fato: Estados Unidos, final dos anos 1920, início dos anos 1930, tempo de crise e depressão que se seguiu à queda da Bolsa de Nova York, em 1929. Proliferavam esses concursos que atraíam milhares de pessoas necessitadas em um país de desempregados.

Jane Fonda (Gloria) e Michael Sarrazin (Robert) compõem o núcleo central do filme de Sydney Pollack, formando um dos casais que viveram aquele vale-tudo. A bela sequência de abertura que posto aqui é um ato premonitório no filme, cujo título original é They Shoot Horses, Don’t They? (algo como “eles matam cavalos, não matam?), uma referência ao ato de sacrificar o animal ferido para que ele não sofra mais.

Adaptado do livro de Horace McCoy, o título do filme soa estranho quando apenas pensamos no nome que ganhou no Brasil – A Noite dos Desesperados. Mas em inglês é uma metáfora que nos remeterá, ao final da projeção, ao absurdo da condição humana – à conclusão de que a vida daqueles deserdados, participantes por dias a fio da maratona, em sua maioria vencidos pelo cansaço e pela dor, não vale mais que a vida de um animal ferido em acidente.

A Noite dos Desesperados é um dos filmes representativos entre aqueles que na virada dos anos 1960 para os 70 procuravam fugir do lugar-comum e manter o diálogo aberto com um público que – às voltas com a Guerra do Vietnã, a liberdade sexual, dentre outras conquistas sociais – se tornava muito mais crítico e não se espelhava mais – ou tão somente – numa dramaturgia romântico-intimista, que encontrou apogeu no cinema dos anos 1930 e 40.

Um momento do qual fazem parte títulos como Bonnie and Clyde – Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, Perdidos na Noite, de John Schlesinger, Ânsia de Amar, de Mike Nichols, Sem Destino, de Dennis Hopper e Peter Fonda, e tantos outros filmes moldados por uma geração ‘sexo-drogas-e-rock’n’roll’ (detectada em livro por Peter Biskind), que salvou Hollywood do marasmo dos grandes estúdios, consequentemente, do desastre da constante perda de público, da qual faziam parte, ainda, nomes como Martin Scorsese, Peter Bogdanovitch e Bob Rafelson.

Cada um a sua maneira soube detectar as crises sociais e sexuais que afligiam uma sociedade que, por assim dizer, estava se tornando adulta, com dilemas específicos que o cinema norte-americano começara a abordar, ali, no berço da ‘juventude transviada’, nos anos 1950.