A Invenção de Hugo Cabret despreza o esquecimento e celebra a arte e a criatividade

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A Invenção de Hugo Cabret, que concorre a 11 Oscar: narrativa fluente sobre o saber, o conhecimento

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011), que polariza as atenções com O Artista na festa do Oscar, é uma aventura infantojuvenil lúdica, sentimental e histórica de Martin Scorsese, que a um só tempo recorre aos mais avançados recursos tecnológicos, com uso especial e inventivo do 3D, e recua no tempo em homenagem ao cinema do início do século 20, que nada mais é que a base de tudo o que se vê, se faz (e se esquece) hoje.

Se David W. Griffith, o inventor da linguagem cinematográfica com Nascimento de Uma Nação (1915) e Intolerância (1916), disse que devia tudo a Georges Méliès – o homem que “foi o primeiro a fazer filmes cinematográficos compostos de cenas artificialmente arranjadas”, segundo o renomado crítico de cinema Henri Angel -, Martin Scorsese desce fundo na vida do autor de Le Voyage à La Lune (1902) em um conto sublime de louvação à arte, à criatividade.

Estamos nos anos 1930. Méliès, interpretado por Ben Kingsley, é nada mais que um passado. O mago, pai da arte no cinema, criador da mise-en-scène e dono do grande Théatre Robert-Houdin, que se opôs ao cinema de representação pura e simples da realidade, como era o de Louis Lumière, foi tragado pelo tempo e sumiu na explosão de novidades determinadas pelo horror da Primeira Guerra Mundial.

Martin Scorsese sobrevoa Paris em plano-sequência, com sua câmera consagrada à invasão de ambientes, até se fixar, entre o grande relógio, nos olhos do menino que reflete aquele senhor, dono de uma loja de bugigangas. O menino é Hugo Cabret (Asa Butterfield), que sobrevive de pequenos furtos e se esgueira pelas veias da central de trem de Paris. Ele se responsabiliza, aleatoriamente, pela manutenção dos relógios e máquinas da estação, depois de perder o pai em um incêndio e ser abandonado pelo tio bêbado. O senhor é Méliès, o homem cansado, que já não pensa no futuro, que já não tem passado.

A partir de então tudo estará correndo a favor de ambos. O menino precisa saber por que é abandonado, o velhinho precia rever o abandono. A Invenção de Hugo Cabret coloca os dois nessa zona de confluência. Martin Scorsese, o homem que no centenário do cinema, em 1995, nos brindou com o documentário histórico e exemplar de quase quatro horas de duração, Uma Viagem Pessoal com Martin Scorsese pelo Cinema Americano, agora adapta para o cinema o livro A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick, e busca na literatura internacional a base dessa narrativa fluente sobre o saber, o conhecimento.

Pois é nas páginas de um livro que Hugo, tão hábil em sua movimentação pelos bastidores do metrô, como o Robin Hood do arco e flecha da floresta de Sherwood, encontra o ponto de partida para o resgate de Méliès. Ele e sua companheira, a menina Isabelle (Chloe Moretz), afilhada do velho da loja, que nada mais é que a representação máxima desse afã pela experiência e que norteia o caminho de Cabret. Porque antes disso, o menino é alguém em busca de discernimento, que se distingue, pelo sentimento, do ser autômato quebrado, deixado pelo pai que o encontrou em um museu.

Scorsese proporciona o conhecimento em relação ao pioneirismo na arte do filme ao nos confrontar com personagens como o inspetor da estação interpretado por Sacha Baron Cohen, que, com seu cachorro brabo e sua perna mecanica, é uma referência à estultice da autoridade máxima representada pelos policiais do cinema mudo. Reconstituir a antológica sequência do relógio de Harold Lloyd em O Homem Mosca (1923). E ao orquestrar as duas grandes sequências do trem, um primor de elaboração cinematográfica baseada nos princípios narrativos de Griffith, com as quais faz referência aos efeitos causados no público pela exibição, logo no início do cinematógrafo, de A Chegada do Trem à Estação, dos irmãos Lumière.

Martin Scorse toma Méliès, a vida e a arte de Georges Méliès, como referência nessa fábula enriquecedora, mas são todos os grandes das duas primeiras décadas do cinema que ele quer cortejar. Nesse momento em que a alta tecnologia impulsina à frente, sempre à frente, ele não se deixa devorar e recorre à simplicidade dos Lumière, Griffith, Harold Lloyd, Max Linder, Buster Keaton, Charles Chaplin e de todos aqueles que inventaram a sétima arte proclamada, há 100 anos, em manifesto do futurista italiano Ricciotto Canudo.