A incrível obra do cineasta inglês Ken Russell

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Oliver Reed e Glenda Jackson em Mulheres Apaixonadas, considerado o melhor filme de Ken Russel

Assistam primeiro ao vídeo que posto logo abaixo, com Elton John cantando, Roger Daltrey jogando pinball e o público em êxtase protagonizando um dos melhores momentos de Tommy (1975), talvez o filme mais conhecido de Ken Russel. Mas o que eu queria dizer é que uma dívida tem que ser paga a Russel (84), à carreira, à obra, à reputação do cineasta inglês que morreu no último domingo, em Londres, depois de uma série de derrames.

Lírico, louco e delirante, o diretor de Mulheres Apaixonadas (1969), filme que deu o Oscar a Glenda Jackson, uma de suas atrizes preferidas (ao lado de Vanessa Redgrave e do ator Oliver Reed), era um enlouquecido. Foi durante muito tempo chamado de o enfant terrible do cinema inglês e pagou caro pela determinação em fazer um cinema de exageros, barroco e por vezes incompreensível. O diretor de Tommy é um cineasta em busca de reavaliação.

Amado pela crítica até meados dos anos 1970, o cineasta foi celebrado inicialmente por Mulheres Apaixonadas, estupendo ensaio sobre amor e sexo adaptado do original Women in Love, de D.H. Lawrence (o autor de O Amante de Lady Chatterley). Depois vieram filmes que o mantiveram no topo. É dele Delírio de Amor, de 1970, em que Richard Chamberlain faz um Tchaikovisky atormentado em complicada relação com sua mulher, Nina, e o conde Anton Chiluvsky, e Mahler – Uma Paixão Violenta (74), ensaio sobre a vida do compositor austríaco Gustav Mahler, talvez a melhor cinebiografia que já realizou, ao lado da anterior sobre o compositor russo.

Trecho de Tommy: Pinball Wizard, com Elton John

Russel fez também O Messias Selvagem (1973), sobre o escultor francês Gaudier-Brzeska, Lisztomania (1975), em que desarticulou a vida do compositor Franz Liszt, e Valentino, O Ídolo, O Homem (1977), com o bailarino Rudolph Nureyev no papel de um dos primeiros símbolos sexuais do cinema, o ator italiano radicado nos Estados Unidos Rodolfo Valentino. Antes de tudo isso, porém, não bastasse o cinema de arestas, pleno de excesso, um escândalo faria parte de sua carreira, Os Demônios, ao retomar com estranha loucura o caso extremo das freiras possuídas na cidade francesa de Loudun, filmado em 1961 pelo polonês Jerzy Kawalerowicz, sob o nome de Madre Jona dos Anjos, um filme impactual e absoluto.

Proibido pela censura, Os Demônios (1972), com Oliver Reed e Vanessa Redgrave, só foi visto no Brasil no início dos anos 1980. Marcou época como um dos filmes mais difíceis do diretor que em 1975 lançou a versão para o cinema da ópera rock do The Who, Tommy, com Roger Daltrey no papel do ídolo que quando criança presenciou a morte do pai, que voltava da guerra, causada pela mãe, vivida por Ann-Margret, e o amante, Oliver Reed. “See me, feel me, touch me, heal me”, diziam os versos da belíssima canção do The Who, que surgem, em recorrências, como um leitmotiv, para caracterizar o estado de choque do menino que vai crescer como alguém que não ouviu, não viu e não ousará dizer nada a ninguém, mas se tornará um gênio do pinball.

Irregular, Tommy conta com Ann-Margret (a estrela do excelente e incontrolável Amor a Toda Velocidade, 1965) já entrando na maturidade e puxando toda a carga de excessividade de um filme que reúne estrelas de altíssimo nível do mundo do rock (além, é claro, de Roger Daltrey e outros integrantes do The Who), como Eric Clapton, no papel de um pastor de um culto religioso que adora Merilyn Monroe, Tina Turner, como A Rainha do Ácido (veja o vídeo abaixo), e Elton John com quem Daltrey vai protagonizar aquele que é lembrado como um dos melhores momentos do filme, um frenesi pop de vigorosidade e delírio de fãs histéricos assaltando o palco da magnífica Pinball Wizard.

Trecho de Tommy: Acid Queen, com Tina Turner

Naquele momento, em que foi feito Tommy, alguma coisa se perdeu no cinema de Ken Russel. Exibido fora da competição, no Festival de Cannes, o filme não foi tão bem recebido quanto se esperava. Não obstante a música do The Who e o monte de participações especiais, incluindo Jack Nicholson, o filme foi considerado pesado, marcado pelo excesso, no mau sentido, por público e crítica, que imediatamente depois viram sobretudo Lisztomania e Valentino com muitas reservas.

Russel recuperou um pouco do prestígio com Viagens Alucinantes (1980), em que parecia querer sintetizar a experiência da contracultura, com William Hurt no papel de um cientista que se mantém como cobaia de suas próprias experiências, e Crimes de Paixão (1984), com Kathleen Turner no papel de uma estilista fracassada que se torna a prostituta China Blue e vive um relacionamento esquisito com um fanático interpretado por Anthony Perkins.

A produção do cineasta inglês caiu sistematicamente, desde então. Foi notado por um ou outro filme, como Gothic (1986), o Prélude et Air de Calaf, episódio 8 do longa Ária, realizado em 1987, e Salome’ s Frist Night, em que voltou a trabalhar, em 1988, com sua musa Glenda Jacksdon. Encerrou a carreira como diretor em 2002 com a adaptação de A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe. É preciso dar a Ken Russel, portanto, o que é de Russel.

Ken Russel (1927-2011)
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