A ideia de transversalidade em Elvis & Madona

Elvis & Madona - pontocedecinema.blog.br

Igor Cotrim (Madona) e Simone Spoladore (Elvis) interpretam um casal sui-generis no filme de Marcelo Laffitte

A ideia de Elvis & Madona (2010), de Marcelo Laffitte, nasceu da história narrada em um programa de televisão mexicano sobre um pai que deixa a família para se tornar travesti. Mais Almodóvar impossível. Sobretudo um Pedro Almodóvar da primeira fase, A Lei do Desejo (1987), em que um rapaz gay perde o amor (sexual mesmo) do pai quando resolve fazer uma cirurgia de mudança de sexo.

Essa é apenas uma das camadas de histórias anticonvencionais do filme notabilizado, depois do sucesso de Antonio Banderas nos Estados Unidos, pela cena de sexo anal entre seu personagem, o perigoso Antonio Benitez, e o diretor de teatro e roteirista de filmes Pablo Quintero (Eusebio Poncela), irmão do rapaz que se tornou Tina (Carmen Maura), transexual atormentada pela perda do amor do pai.

Elvis & Madona, embora simples em sua narrativa, que não se revela com as preocupações formais e estilísticas do filme de Almodóvar, se alimenta dessa ideia de transversalidade na apreensão do comportamento humano ao marcar o encontro amoroso de Madona (Igor Cotrim), um travesti que pretende realizar um musical de teatro de revista, e Elvis (Simone Spoladore), uma fotógrafa lésbica de família de classe média alta decadente, que começa a trabalhar como entregadora de pizza.

Logo nos primeiros momentos, quando passam os créditos, somos introduzidos no universo do filme, no bairro de Copacabana, aliás, um personagem à parte. Vemos Madona a caminho de casa, depois do trabalho. Elvis cruza com o travesti, sem conhecê-lo, ao se dirigir à pizzaria onde começa a trabalhar, e o bandido João Tripé (Sérgio Bezerra) chega para armar o roubo contra Madona, sua amante.

Fecham-se os créditos. Temos aqui um exercício de mise-en-scène bem construído, que nos orienta em relação a tudo o que acontecerá a partir de então. A primeira entrega de pizza levará Elvis a encontrar Madona agredida pelo amante e chorando a perda de todas as economias guardadas para montar o espetáculo.

São dois desafios lançados agora ao diretor Marcelo Laffitte: resolver o problema de Madona, que não desiste da ideia do teatro de revista e também não quer denunciar João Tripé à polícia. E dar um trato plausível à relação incomum entre uma lésbica e um travesti.

A ideia de naturalidade que pode conter uma relação entre uma lésbica e um travesti vai emergir, adiante, da estranheza que causa o universo familiar distorcido da entregadora de pizza, formado por pai, mãe, irmã e cunhado. E quanto ao problema de Madona, as colegas e o dono do salão sinalizam a todo momento a quem apelar para recuperar o dinheiro roubado, o que resultará em um desfecho surpreendente.

O diretor encontra pedras no caminho. E isso tem a ver com fragilidades do roteiro e a presença de alguns personagens um tanto quanto alinhavados, como o delivery que a todo momento corteja Elvis na pizzaria e os dois funcionários da rede de entregas – o balconista meio abaianado (por assim dizer) e a caixa que é amiga de Madona.

Também falta mais trato em relação à natureza do espetáculo que o travesti quer representar, o que poderia dar mais vigor, encanto e graça a Elvis & Madona. Mas o universo de apreensão de comportamentos diversos, que leva tudo parecer o que não é – que tem a ver com aquela transversalidade presente em Almodóvar – mantém o interesse e o filme de Marcelo Laffitte, nesse sentido, é uma boa surpresa.