A era de ouro do rock de Brasília segundo Vladimir Carvalho

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Rock Brasília - Era de Ouro: Vladimir Carvalho entrevista Renato Russo antes de show histórico em 1988

Antes mesmo de falar sobre Rock Brasília – Era de Ouro, que ganhou o prêmio de Melhor Documentário no início do ano, no Festival de Paulínia, e abriu o Festival de Brasília, em setembro, é preciso descrever a trajetória de Vladimir Carvalho – que se abre num arco no final dos anos 1950, na Paraíba, com a participação como corroteirista de Aruanda, de Linduarte Noronha, e a realização de Romeiros da Guia, com João Ramiro, em 1962 – e resgatar a origem do seu senso de oportunidade e determinação no trato com o material coletado e pesquisado, imprescindível em bons documentaristas.

Nascido em 1935 em Itabaiana, o paraibano Vladimir Carvalho vem logo em seguida a Romeiros da Guia para a Bahia, concluir os estudos de filosofia, onde encontra nomes como Caetano Veloso e Glauber Rocha, e entra na militância política integrando os quadros do Centro Popular de Cultura da UNE. É quando Eduardo Coutinho, o diretor de Cabra Marcado para Morrer, o convida para assistente de produção da obra, um documentário sobre o assassinato do líder João Pedro Teixeira, em 1962, e o trabalho das ligas camponesas no engenho da Galiléia, em Pernambuco, onde se basearam as equipes de filmagens.

Com o golpe militar de 1964, a equipe teve que se dispersar imediatamente e somente 17 anos depois Eduardo Coutinho retomou as filmagens, reencontrando os trabalhadores que havia entrevistado e a mulher de João Pedro Teixeira, Elizabeth. O resultado, exibido no Festival do Rio de 1984, levou o prêmio de Melhor Filme. Cabra Marcado Para Morrer é, para além de suas infinitas qualidades, o exercício, em registro notável, daquele senso de oportunidade e determinação do qual Vladimir Carvalho jamais se afastou mesmo quando disperso.

Na virada dos anos 1960 para os 70, Carvalho fez um de seus melhores trabalhos, O País de São Saruê, um documentário sobre os trabalhadores do sertão nordestino que foi proibido pelo governo militar em 1971 e restaurado apenas em 2003. Mais adiante, Companheiros Velhos de Guerra (1991), que levou 20 anos para concluir, consagrado aos 20 mil trabalhadores que derramaram o suor no Planalto para construir Brasília. E Barra 86, em 2001, em que registra a invasão da Universidade de Brasília pelo Exército Brasileiro. Ambos os filmes compõem com Rock Brasília – Era de Ouro o que o cineasta chama de uma trilogia sobre a trajetória histórica, política e cultural da capital do Brasil.

Pois é nessa tradição de persistência que situa Rock Brasília. Vladimir Carvalho costura a história de um grupo de roqueiros, filhos de pais remediados, professores e diplomatas da capital federal, que mal saíram da adolescência e já deixavam se influenciar pelo punk rock inglês. Fundaram a banda Aborto Elétrico, de um certo Renato Russo, para aplacar o tédio do condomínio onde moravam, conhecidos, os edifícios, como prédios da colina, com vista para o Lago Norte. Nascia assim a Turma da Colina, de onde saíram a Legião Urbana de Renato Russo (e Marcelo Bonfá e dado Villa-Lobos), o Capital Inicial de Dinho Ouro Preto e dos irmãos Fê e Flávio Lemos e a Plebe Rude de Philippe Seabra.

Mas se você quer ouvir rock, não é rock que você vai encontrar, de cara, no filme de Vladimir Carvalho. Aliás, vai sim: mas antes mesmo de dominarem os acordes de hits como Que País É Esse, Até Quando Esperar e Música Urbana o que impera é a palavra – a história, o relato. Carvalho costura o documentário com a entrevista que fez com Renato Russo um dia antes do caótico show da legião Urbana no estádio Mané Garricha, em 1988, quando não houve como aplacar o ânimo da multidão e a banda saiu do palco sem o apoio dos seguranças e sob a revolta do público.

São depoimentos de hoje que jorram, cotejados com imagens raras do passado – essas, da entrevista inédita de Renato Russo e do show, com gente aos frangalhos no Mané Garricha – e relatos da mãe e da irmã do líder da Legião, de Fê e Flávio Lemos, Philippe Seabra, Dinho, Dado, o pai dos Lemos, uns mais outros menos necessários. São sentimentos expressados diante de uma câmera bem enquadrada, atenta, rara, como se não fosse de hoje, o tempo em que se fazem documentários como num piscar de olhos.