A Dama de Ferro é um exercício de cinema frenético sobre a demência de Margaret Thatcher

A Dama de Ferro - pontocedecinema.blog.br

Meryl Streep, a maior estrela de cinema da atualidade, na pele da ex-primeira-ministra britânica em A Dama de Ferro

A Dama de Ferro é so, so. Meryl Streep está ótima, como sempre, mas não é o melhor que podia nos dar. Muito interessante vê-la no início da trama, em um pequeno supermercado, comprando leite. E logo depois a sua defesa (pelo fato de ter saído de casa sozinha naquela idade), recusando-se a uma existência de velha enferma, bem no estilo da vida de Margaret Thatcher.

Por um instante me veio à mente, adolescente, a imagem de Greta Garbo, já há muitos anos reclusa, na década de 70, fotografada em um dos seus raríssimos momentos em público. As fotos espalhadas pelo mundo. E o pedido antológico, anos antes, para que a deixassem em paz: I want to be alone ou I want to be let alone.

Pensei que A Dama de Ferro pudesse entrar mais no vazio de Thatcher. Aliás, no vazio de todos que se tornam mais graves e sós à medida que o tempo avança, implacável.

O filme tenta reconstruir a capacidade mental de Thatcher, ao passo que se aproxima mesmo de um exercício frenético sobre a demência da ex-primeira-ministra britânica. Há muitas angulações insólitas, paralelismo entre passado e presente e verdadeiro empenho na tentativa de mergulhar no poço escuro da personagem.

As aparições do marido morto, Denis – que se recusa a abandonar a mulher. Ou, o contrário: ela que não quer que ele a deixe em paz – , são o que de melhor há no filme de Phyllida Lloyd. Mas A Dama de Ferro é muito reverente à atuação política de Thatcher.

Estilisticamente excessivo, tem um quê do frenesi de Ken Russel, o diretor de Tommy e Lisztomania, morto no final do ano passado. Vendo suas imagens excitadas, por um momento pensei se não seria melhor se Lloyd tivesse feito uma ópera rock da vida de Margaret Thatcher. Mas, vá lá, esqueçam isso.