A Crítica Cinematográfica na Bahia (2) – Glauber Rocha

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Glauber Rocha: críticas de cinema entre 1956 e 1963

Publico a segunda parte da pesquisa que fiz para palestra sobre A Crítica Cinematográfica na Bahia na noite de quinta-feira, na Sala Walter da Silveira, integrando o Seminário de Crítica de Artes, realizado pela Fundação Cultural da Bahia (Funceb), encerrado sexta-feira (23/9).

Sobre o momento da crítica cinematográfica e do boom do cinema baiano há que se destacar o trabalho da professora Maria do Socorro Silva Carvalho, sobretudo no livro A Nova Onda Baiana, em que se debruça sobre um período (1958 a 1962) e detecta em Bahia de Todos os Santos, de Trigueirinho Neto, Barravento, de Glauber Rocha, e A Grande Feira, de Roberto Pires, uma trilogia, a trilogia da fome.

“Além da fome como tema comum, as obras discutem a pobreza de um povo e suas estratégias de sobrevivência” em estreita relação com a marginalidade”, afirma Maria do Socorro para estabelecer vários pontos de ligação entre os três filmes, inclusive a presença dos personagens interpretados por Antônio Luiz Sampaio, que viria a ser Antônio Pitanga, por força do nome que ganhou em Bahia de Todos os Santos, Pitanga, que como que se desloca para o Firmino de Barravento e o Chico Diabo de A Grande Feira.

Bahia de Todos os Santos é um filme à parte. Foi aguardado com grande expectativa por toda a sociedade baiana, assinala Maria do Socorro. Mas revelou-se uma decepção para público e crítica, em sua estreia de gala, estabelecendo-se uma polarização entre Walter da Silveira e Glauber Rocha. Walter escreveu no Diário de Notícias:

“Tanto desejei aplaudir você, Trigueirinho Neto: não pude. Bahia de todos os Santos não merece a vaia dos que detestaram o filme. Mas, não merece amor (…). Eu não amei nem detestei Bahia de Todos os Santos. Três Sentimentos se sucederam em mim: a frustração, a piedade e a revolta.. Era então para ver uma sucessão caótica de planos, cenas e sequências que se esperava ansiosamente a noite de 19 de setembro de 1960?”. E acrescenta: “Eu sempre acreditei que tivéssemos, pela primeira vez, com você imagens mais típicas e mais profundas desta cidada. No fim, é ainda o superficialmente pitoresco que você nos dá.”

Mas Glauber Rocha, que assistiu a Bahia de Todos os Santos antes da pré-estreia, já havia revelado a preocupação com relação a como seria recebido a produção dirigida Triguerinho, paulista que estudou em Roma e que veio para a Bahia com a missão de fazer o filme. Glauber se dedicou à defesa, destacando a visão cinematográfica da injusta realidade brasileira, contida no filme, como muito mais importante que os possíveis erros formais de Trigueirinho Neto. Mais tarde, no seu polêmico livro Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, escreveu:

“É um filme de autor, de ruptura, um filme carregado de equívocos, um filme que, mergulhado no social, foi estrangulado pela personalidade individualista de seu autor. Briguei e continuo a brigar porque considero Bahia de Todos os Santos uma ruptura com o cinema tradicional que se fazia no Brasil, tão importante, em 1959, como Rio 40 graus e Rio Zona Norte; como mais tarde Porto das Caixas e num plano especial Os Cafajestes”.

“Trigueirnho Neto, violentamente apegado à desmistitifcação, se liberta das próprias noções do que vem a ser cinema e propõe, neste abstrato canto baiano, uma destruição do discurso cinematográfico”. Para Glauber, Trigueirinho é “um irritado, um insolente. Concebe com a razão o ataque social”.

Glauber Rocha, cujo exercício na crítica cinematográfica, entre 1956 e 1963, foi estudado pelo professor da Ufba Umbelino Brasil, em seu doutorado, fundou o grupo Jogralescas, em 1956, com Fernando da Rocha Peres, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Luis Paulino, Zé Teles e Fred Castro. Escreveu para revistas como Mapa e Ângulo.

Começou como repórter policial do Jornal da Bahia, onde também publicou artigos de cinema e assumiu o Suplemento Literário. Escreveu para o suplemento dominical do Diário de Notícias e do Jornal do Brasil. A essa altura, o cineasta baiano, que estreou na direção com o curta O Pátio (1959), já estava envolvido com o grande movimento artístico e cultural da época de Martim Gonçalves e do reitor Edgard Santos.

Glauber se preparava para o grande salto cinematográfico. Depois de dirigir O Pátio, utilizando as sobras de negativos do longa Redenção, ele fez outro curta, A Cruz na Praça, um filme perdido, e partiu para Barravento em direção à revolução de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967).

Antes do lançamento de Deus e o Diabo, o livro Revisão Crítica do Cinema Brasileiro levantou polêmica: um manifesto em que Glauber sedimentou o pensamento sobre o que achava que deveria ser o Cinema Novo e se voltou para o passado.

Fez uma espécie de descoberta do Humberto Mauro (mas muitos pontificaram que o cinema de HM já havia sido descoberto) e lembrou o retorno e a decepção de Alberto Cavalcanti, brasileiro de prestígio internacional, que, ao voltar para o Brasil, foi convidado por Franco Zampari para ser produtor geral da Vera Cruz, companhia que naufragou. E atacou Lima Barreto e seu O Cangaceiro (1953) – que ganhou o prêmio de música e melhor filme de aventura no Festival de Cannes – e, mesmo sem ter visto, Limite, a obra-prima de Mário Peixoto.

Lembra, sobre O Cangaceiro, filme distribuído pela Vera Cruz, que, por falta de visão dos produtores, ou por necessidade urgente de dinheiro, foi vendido a preço fixo à Columbia. “A Colúmbia deu o pulo do gato e foi quem lucrou”. Também atacou Walter Hugo Khouri e Ravina, filme dos críticos Flávio Tambellini e Rubem Biáfora: “O cinema paulista foi um cinema sem possibilidades: erro de raízes, origens culturais, conhecimento do Brasil e seus problemas”.

E mais: “A crítica, sem visão histórica, ignorante dos verdadeiros problemas, começou a exigir uma escola definida que justificasse cinema novo. Enquanto a crítica pedia matérias para digressões, combinamos que a nossa grande luta era contra a chanchadas”.

Glauber aponta Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias, como uma das contribuições mais sérias e consequentes ao cinema brasileiro. E se detém em filmes como Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Os cafajestes, de Ruy Guerra.

Sobre Anselmo Duarte, diz aprendeu cinema trabalhando como ator com diretores de carnavalescos, como Watson Macedo e José Carlos Burle. Absolutamente Certo foi, segundo Glauber, um passo positivo na evolução da chanchada para o filmusical carnavalesco. “Duarte apresentara um filme [ O Pagador de Promessas, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962)] que, para o júri, era mais positivo que filmes de cineastas como Antonioni, Buñuel, Bresson e Cacoyannis”. E acrescenta que Anslmo Duarte, “inegavelmente, tem a força do grande espetáculo: é um Lima Barreto passado a Limpo”.

Em função das polêmicas provocadas pelo livro, o jornal Última Hora e Fundação Cinemateca Brasileira promoveram um debate que reuniu Lucila Ribeiro e Cecília Guarnieri, Paulo Emilio Salles Gomes, Roberto Santos, Álvaro Bittencourt, Jean Claude Bernadet e Maurice Capovilla.