A Crítica Cinematográfica na Bahia (6) – Sala Walter da Silveira

Sala Walter da Silveira  - pontocedecinema.blog.br

Sala Walter da Silveira: referencial entre os cinemas baianos

Encerro aqui, com a publicação sobre a importância da Sala Walter da Silveira, a série sobre A Crítica Cinematográfica da Bahia, tema da palestra que integrou o Seminário de Crítica de Artes realizado na referida sala.

É pecado falar sobre A Crítica Cinematográfica na Bahia sem se deter no papel da Sala Walter da Silveira na formação de críticos, cinéfilos e o público interessado em um cinema que não é absorvido pelas salas comerciais. Durante um longo período, foi como um templo da cultura cinematográfica baiana. Inaugurada no final dos anos 1970, teve como responsável, por vários anos, o cineasta Walter Lima, que passou a programar filmes no então auditório da Biblioteca Pública do Estado, nos Barris, ao receber um projetor em 35mm do Palácio de Ondina.

Na Walter da Silveira se formaram pelo menos duas gerações de críticos e cinéfilos, que tiveram acesso à escola russa, ao expressionismo alemão, ao cinema japonês, ao neorrealismo italiano, à nouvelle vague francesa, aos cinema novo brasileiro, às mostras dos grandes autores do cinema como Bergman, Fellini, Antonioni, Visconti, Wajda, Pasolini, ao cinema transgressor de Polanski, em sua nascente, A Faca na Água.

Havia alguns outros cinemas de arte na Bahia, nos anos 1980. O cine Rio vermelho exibiu grandes mostras durante algum tempo, tudo do novo cinema novo alemão e do expressionismo podia ser visto no cine-teatro do Icba, que vinha de um momento de efervescência nos anos 1970, com a realização da Jornada de Cinema da Bahia.

O teatro Maria Bethânia marcou época alternando exibições do então chamado cinema de arte com espetáculos musicais e teatrais e o Bahiano de Tênis destinou seu auditório ao cinema e ao teatro. Era o chamado Expresso Bahiano, que teve sua boa fase, muito antes de surgir o circuito Sala de Arte.

Mas foi a Sala Walter da Silveira, antes chamada de Cinema de Arte da Bahia, ou simplesmente a sala da Biblioteca Central, a régua e o compasso. Para lá corriam todos os grandes filmes que o circuito comercial não conseguia segurar por mais de uma semana ou que se recusava a exibir, por considerá-los difíceis. Ali, a partir do final dos anos 1980, acompanhamos vários booms cinematográficos. O do cinema chinês, por exemplo.

Um filme de Zhang Yimou não ia bem em outro cinema, ou seus primeiros filmes não interessavam ao circuito comercial? A Walter da Silveira exibia. O badalado Wong Kar-Wai teve seus primeiros filmes vistos na Bahia ali. E o que dizer de Kieslowski, alçado a cult depois que não Amarás e Não Matarás, extraídos da série para televisão Decálogo, fizeram sucesso na Europa?

A Trilogia das CoresA Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha –, do mesmo Kieslowski, encontraram pouso por várias semanas na Walter da Silveira, assim como o cinema iraniano, para o qual se deslocava quase todo o interesse dos circuitos alternativos em meados dos anos 1990.

Com o fechamento da Biblioteca Pública para reforma, em 1996, o cinema alternativo foi transferido, com sucesso, para o Cinema do Museu, retornando depois para os Barris, onde encontrou público em curva ascendente até atingir o clímax com Buena Vista Social Club, filme de Wim Wenders que ficou quase um ano em cartaz na Sala Walter da Silveira e foi um dos maiores sucessos do cinema alternativo no país.

O tempo então, já no início dos anos 2000, era outro, com a burocracia exigindo documentos e documentos para abrir processos e pagar o aluguel de filmes, o que inviabilizou a Sala Walter da Silveira em seu papel de espaço de lançamento de filmes alternativos, cedendo lugar, então, ao cinema do Bahiano de Tênis e, então, ao sucesso do circuito SaladeArte. Ainda hoje há um trabalho importante de curadoria desenvolvido pelo programador Adolfo Gomes, mas as exibições, como na Sala Alexandre Robatto, são em DVD.

Hoje temos o circuito Sala de Arte e o Espaço Unibanco Glauber Rocha, que cumprem função intermediária entre o cinema dito alternativo e o comercial. Mas é pouco. Há alguns meses uma grande mostra de Alfred Hitchcock foi exibida no Rio e em São Paulo. O mesmo aconteceu com Vincente Minelli e Claude Chabrol. Cópia de uma das obras-primas de Luchino Visconti, Violência e Paixão, circula pelo país. E Salvador fica a ver navios. A Sala Walter da Silveira precisa voltar a ser aquele templo de cinema, com um bom sistema de projeção digital e projeção em 35mm. A menos que o governo do estado guarde outro coelho na cartola.