A Crítica Cinematográfica na Bahia (3) – Ultrapassando fronteiras

Paulo Emílio Sales Gomes - pontocedecinema.blog.br

Paulo Emílio Sales Gomes: "Na Bahia a coisa é séria"

Publico a terceira parte da pesquisa que fiz para palestra sobre A Crítica Cinematográfica na Bahia na noite de 23/9, na Sala Walter da Silveira, integrando o Seminário de Crítica de Artes.

A importância do movimento cinematográfico baiano atravessa fronteiras. O historiador francês Georges Sadoul vem ao Brasil, no início dos anos 1960, e, em artigo publicado no Lettres Française, menciona a Bahia como “a Meca do cinema brasileiro”. E Paulo Emílio Sales Gomes publica na revista Visão, em 1961, artigo sob o título Na Bahia a coisa é séria, em que fala sobre sobre como os baianos veem os filmes estrangeiros feitos aqui, bem como o temor com relação à presença dos estados mais ricos e desenvolvidos e que as produções decorrentes disso “não possam compreender a problemática social baiana”.

“Esse momento cinematográfico se deve, em grande parte, às atividades do seu Clube de Cinema, inseparável da figura do seu fundador e dirigente há dez anos, Walter da Silveira”, afirma o paulista Paulo Emílio, crítico, ensaísta, um dos nomes fundamentais do pensamento cinematográfico no Brasil. “Os jornais da Bahia são hoje os que dispõem dos críticos cinematográficos mais jovens e entusiastas do país. Numa revista literária como Ângulos, as seções mais estimulantes e polêmicas são as que se dedicam ao esforço da compreensão e da análise da cunjuntura cinematográfica brasileira”.

A produção crítica na Bahia dos anos 1960 era vasta. Demanda ainda muitos estudos com relação ao elenco de críticos que militavam não apenas em Salvador, mas no interior do estado, provoca o cineasta José Umberto ao lembrar que ele mesmo, com amigos, em Feira de Santana, criou uma Associação de Críticos de Cinema. Além de publicar em jornais locais e folhetos, tinham um programa de rádio chamado Cinema em 3 Dimensões, dividido em três partes: crítica de filmes, programação do dia e a música de cinema. E isso, o exercício de pensar o cinema, não era um privilégio apenas de Salvador e Feira de Santana. Outras cidades também tinham seus clubes e associações, o que daria bom material para pesquisa e análise, sugere Umberto.

No final dos anos 1960, soma-se às publicações já existentes, a chegada da Tribuna da Bahia. Convidado pelo jornalista Quintino de Carvalho, um dos fundadores da TB, Walter da Silveira levou uma equipe de críticos para as páginas do novo jornal: José Umberto (que escrevia com o pseudônimo Freire Dias, pois já assinava coluna no Jornal da Bahia), Hamilton Correia, Geraldo Machado, Guido Araújo, Jairo Faria Góes. Walter da Silveira lançou em vida dois livros, Fronteiras do Pensamento (1966) e Imagem e Roteiro de Charles Chaplin, em agosto de 1970, pouco tempo antes de morrer, em 5 de novembro. Entre suas iniciativas, pode-se destacar ainda o histórico Curso Livre de Cinema, também realizado no final dos anos 1960, sobre o qual voltaremos a falar na próxima publicação.

José Augusto Berbert de Castro
Um nome que atravessa o período é José Augusto Berbert de Castro, que não se considerava um crítico de cinema. O jornalista manteve uma coluna de cinema no A TARDE até pouco tempo antes de morrer, em 2008. Sua produção foi sempre mais inclinada ao cinema de entretenimento, ao cinema de estrelas das grandes companhias de Hollywood para onde viajou várias vezes. Tinha um estilo inconfundível. Escreveu por 60 anos no A TARDE. Em 2004, Berbert foi entrevistado pelo crítico André Setaro e o jornalista Claudio Leal em momento revelador, em que conta fatos relacionados ao mundo do cinema, suas viagens a Hollywood e como começou a se interessar e a escrever sobre cinema.

“Gostavam do que eu escrevia porque eu escrevia para o público ler. E não para outro crítico ler. Para outro crítico ler, tem que ser em revista de cinema”, revela Berbert na entrevista publicada no Setaro’s Blog. Além de sua coluna diária, teve cadeira cativa no Ultraleve de A TARDE, onde escritos sobre cinema se misturavam aos mais variados temas, sendo notórios os casos pitorescos que contava envolvendo a turma de exercícios físicos na orla, da qual participava, a Turma da Madruga. Polêmico, sobretudo a partir dos anos 1980, quando ganhavam corpo os movimentos contra o preconceito, fez campanha sistemática contra a homossexualidade.