A Criada, de Park Chan-wook, é um exercício de estilo que une farsa, erotismo e mistério

Cineasta transpõe romance de Sarah Waters passado na Inglaterra vitoriana para a Coreia dos anos 1930

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Sookee (Kim Tae-ri) e Hideko (Kim Min-hee) em jogo de simulações no filme sul-coreano

Autor da trilogia Mr. Vingança (2002), OldBoy (2003) e Lady Vingança (2005), com a qual ganhou notoriedade, o sul-coreano Park Chan-wook flertou mais diretamente com o cinema ocidental em Segredos de Sangue (2013), uma co-produção Reino Unidos/EUA.

Thriller coalhado de citações, sobretudo a Alfred Hitchcock, em Segredos ele praticamente emula A Sombra de Uma Dúvida (1943), em que Joseph Cotten interpreta um assassino de viúvas que vai morar com a família da irmã para não ser desmascarado.

Em A Criada, Chan-wook mantém a inspiração, dessa vez modelando o ato criador pelas deambulações emocionais de Rebecca –A Mulher Inesquecível (1940), Suspeita (1942) e Um Corpo que Cai (1958). Mas em um registro próprio de erotismo à flor da pele bem distante dos vestígios de moralidade que impregnam a obra do católico Hitchcock.

A Criada é uma adaptação do livro Falsas Aparências (Fingersmith), romance lésbico da escritora britânica Sarah Waters, passado na Inglaterra vitoriana e também adaptado para a televisão em 2005 por Aisling Walsh. É uma espécie de Ligações Perigosas (1988, Stephen Frears/ Chordelos de Laclos)  ambientado na Coreia dos anos 1930.

Chan-wook mantém os jogos, mas transpõe a história original para o país sob ocupação japonesa, utilizando dos mais diversos recursos para criar uma atmosfera bizarra, ao tempo que sofisticada, em que imperam o desejo, a cobiça e a trapaça. São quatro os personagens principais que se articulam em uma teia de intrigas das mais perturbadoras.

O falso conde Fugiwara (Há Jung-woo) recruta a ladra Sookee (Kim Tae-ri) para ser criada da herdeira japonesa Hideko (Kim Min-hee), que vive em uma rica propriedade com seu tio Kouzuki (Cho Jin-woong), um colecionador de literatura erótica. Ele na verdade pretende casar com Hideko, se apoderar da fortuna e internar a garota como louca.

Mas nada será como pretende. A narrativa se divide em partes que dão voz a Sookee e a Hideko e vão se desvelando em camadas.  A Criada é uma farsa. E em tom farsesco Chan-Wook desarticula o espectador, surpreendido pelo ardil de cada um dos personagens.

Belos movimentos de câmera revelam o gosto pelo detalhe. Ninguém mais passeia pelo ambiente em panorâmica, à semelhançade um Luchino Visconti, como Chan-wook, que com breves imagens descreve a propriedade suntuosa de Hideko, sobre a qual paira uma aura fúnebre e de luxúria e sensualidade.

Mãos, bocas, luvas, joias, sexo, muito sexo, compõem o catálogo descritivo desse ensaio crítico, melancólico e misterioso sobre aocupação na Coreia. Mas Chan-wook poderia se dar menos conta como virtuose em um exercício de estilo e ser mais incisivo em sua incursão histórica. Mesmo assim, A Criada é um filme fascinante.

Matéria publicada no jornal A Tarde.