A Árvore da Vida: do mínimo ao máximo impreciso e glorioso

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Jack não se livrará da dor da perda do irmão, mas ele é o fiel de uma balança que pende para a amorosidade da mãe

Estranha a sina de Cannes em maio passado. De um lado, um cineasta assoberbado, Lars von Trier, disse loas sobre o nazismo e Adolf Hitler, durante a coletiva de imprensa. Pediu desculpas, mas mesmo assim foi banido do festival. No extremo oposto, outro, Terrence Malick, que afinal levou a Palma de Ouro, avesso à badalação, não deu entrevista, nem apareceu para receber o prêmio.

O dinamarquês Von Trier e o norte-americano Malick são os responsáveis por dois dos principais filmes do ano. Mostraram que têm natureza diversa, mas em algum ponto convergem. Você pode até não gostar, mas difícil sair tranquilo de uma sessão de Melancolia ou de A Árvore da Vida, que trabalham juntos ao abordar a existência do homem e sua perspectiva diante do universo intocável.

Melancolia, sobre o qual já se falou aqui, uma obra revoltada, esculpe personagens em crescente estado de agonia, sem ajustes, para depois confrontá-los, sós, diante do fim, como um Cristo pregado que pergunta por que foi abandonado. Von Trier fala da natureza, de nós e de todas as coisas que nos rodeiam, assim como Malick, em A Árvore da Vida, que, enfim, tenta apreender a existência em seus variados instantes, do mínimo possível ao máximo impreciso e glorioso.

O mínimo seria o início, a formação, que tem a ver com o núcleo familiar de pai, mãe e três filhos retratados no filme, que, a partir de então, se estende a uma tentativa de compreensão do universo e da existência do homem na terra, o máximo. Aliás, em tudo pode existir o mínimo e o máximo, norteados por duas forças definidas como a natureza e a graça que são, na realidade, dois caminhos opostos, para escolher e seguir.

Ambos estão no filme representados, respectivamente, pelo pai e pela mãe (o casal Obrien, Brad Pitt e Jessica Chaistain), que encontram a correlação no filho mais velho, Jack (Hunter McCracken, quando criança/adolescente, e Sean Penn, na fase adulta). Aqui, como em Melancolia, a lógica dialética regulando todas as coisas. Jack, que reflete sobre a perda de um dos irmãos, não se livrará jamais da dor a que a tragédia levou a família. Mas ele permanecerá como o fiel, o fruto mesmo desta árvore da vida, que pende voluntariamente para a delicadeza e amorosidade da mãe, em confronto com a intransigência e rigososidade do pai.

A citação a Jó, no início de A Árvore da Vida, tem a ver com um plano traçado para o homem na terra. Um pouco como em Melancolia, que vai buscar ressonância na história do Cristo só, pregado, abandonado. Jó precisava ser provado porque ele era próspero, rico e teria que dizer se sua manifestação de fé seria a mesma se lhe tirassem o dinheiro, a saúde, a família, tudo. E deixasse ele na vida apenas por um fio. O homem pregado e o Jó moribundo não entendem por que tanto sofrimento. É um monólogo interior que nos dá conta da incompreensão em torno da pena. Como o monólogo de Jack.

A ideia perpassa a obra de Malick, um cineasta bissexto que, ao longo de quase quarenta anos de carreira, fez apenas cinco filmes em que, pelo menos nos principais deles, esse sentimento de impotência surge e se instaura. Seja na história dos soldados de Além da Linha Vermelha (1998), que ultrapassam o limite inexorável da guerra e traçam uma escolha, ainda que íntima, mas infinita, alternativa à dor, seja na história da menina de Dias de Paraíso (1978), que tudo vê, tudo sabe, conhece e, como o Jack de A Árvore da Vida, tem seu ingresso comprado, o seu rito traçado, para a vida no mundo dos adultos.

A Árvore da Vida e Melancolia
De Terrence Malick e Lars von Trier
Em cartaz:Unibanco Glauber Rocha, UCI Orient Cinemas, Circuito SaladeArte

Dias de Paraíso e Além da Linha Vermelha
De Terrence Malick
Onde encontrar: Vintage Vídeos