O cinema urgente, reflexivo, enxuto e questionador de Sidney Lumet

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O diretor de Rede de Intrigas morreu de linfoma, aos 86 anos

Indicado cinco vezes ao Oscar, o diretor de Um Dia de Cão, Serpico, Rede de Intrigas e Doze Homens e Uma Sentença, que morreu aos 86 anos, há algumas semanas, era um dos grandes do cinema norte-americano.

Responsável por um cinema defensor de causas urgentes, ele foi um artista incansável: dirigiu mais de 50 filmes, mas ganhou apenas um Oscar honorário em 2005. Disse, certa vez: “Meus filmes estimulam o espectador a examinar uma ou outra faceta de sua própria consciência”.

É uma sequência primorosa de Rede de Intrigas, de 1976, que compartilho com vocês. O filme descortina os bastidores de uma rede de televisão norte-americana e mostra Peter Finch em grande registro no papel de um exímio manipulador: um apresentador de televisão que anuncia que vai se matar, no ar, quando descobre que será demitido.

Na sequência que destaco, ele mostra todo o poder de persuasão ao fazer milhares de pessoas gritarem da janela de suas casas “estou louco e não vou mais aturar isso”, em demonstração de revolta contra um estado de coisas.

Lumet, um dos maiores cineastas norte-americanos, parece que fez o filme ontem. Rede de Intrigas, que ganhou quatro Oscar, incluindo os de melhores Ator e Atriz para Finch e Faye Dunaway, faz par com outros grandes títulos sobre o poder de manipulação da mídia, como A Primeira Página e A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder.

Dizem que Lumet foi um cineasta de altos e baixos. Mais baixos do que altos. Discordo, diretor que guardo em altíssima conta, fez um dos melhores filmes que vi nos últimos anos: Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto. Que dizer de Um Dia de Cão, Serpico, O Veredicto, Doze Homens e Uma Sentença, O Home de Prego? Mesmo em momentos poucos conhecidos, como Q&A e Daniel, ele era rigoroso, com um cinema reflexivo, enxuto, sempre questionador.

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Faye: Oscar de Mlehor Atriz

Sabia como nenhum outro cineasta equilibrar os tempos fortes, os momentos mais eletrizantes de um filme, com os tempos mortos, de reflexão e repouso para o espectador. Recrio na memória as cenas soltas de rua de Um Dia de Cão. Parece que o assalto a banco está acontercendo ali, na esquina, e pede com urgência a nossa presença na área.

Assim como Arthur Penn e John Schlesinger, Lumet foi cria dos momentos iniciais da TV norte-americana. Dirigiu séries. Ajudou a moldar um novo cinema norte-americano, de dramas mais fortes, condizentes com as transformações que o mundo passava no final dos anos 50, atravessando os 60. Transformações infinitamente presentes nos 70.

Se há Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Bob Rafelson e Dennis Hopper, nomes que – como bem diz Peter Biskind em livro – fizeram parte da geração sexo-drogas-e-rock´n´roll que salvou Hollywood, agradeçam a cineastas do porte de Sidney Lumet.