Juliano Cazarré: “Tudo feito com poesia e bom gosto”

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"A ingenuidade do Iremar tem mais a ver com uma pureza, uma pureza de alma" Foto: Divulgação

“Acho ótimo que muita gente saia do cinema achando que ‘rolou’”, afirma o ator sobre o momento em que seu personagem transa com o de Samya de Lavor em Boi Neon, filme do pernambucano Gabriel Mascaro que estreia nesta quinta-feira, 14 de janeiro. Um dos mais atuantes  do cinema brasileiro, que vive o Mc Merlô da novela global A Regra do Jogo,  o ator estreou em longa-metragem  no filme A Concepção, de José Eduardo Belmonte, lançado  em 2005. Em Boi Neon ele faz o vaqueiro Iremar, que sonha em se tornar um estilista profissional . Em entrevista por e-mail, Cazarré fala da experiência de trabalhar em um filme que rompe com os estereótipos  e diz que o objetivo do ator é “fazer com que tudo pareça real”.

Você nasceu em Pelotas (RS), foi criado em Brasília. São vários tipos e sotaques no cinema e na TV. Como faz para se adaptar a essas diferentes esferas?
Eu presto muita atenção aos sotaques, acho bonito sotaques diferentes, adoro ditados populares, expressões regionais. Acho importante encontrar o sotaque, a maneira de falar de cada personagem. No Brasil isso indica muito bem quem é aquela pessoa, como pensa, de onde veio, etc.

São cerca de 10 anos com papeis marcantes. Fale um pouco sobre sua trajetória.
Comecei no teatro brasiliense, estudando Artes Cênicas na UnB. Fiz várias peças de teatro na cidade, alguns curtas-metragens, até que em 2004 participei do meu primeiro filme de longa metragem. A partir daí fui recebendo convites no cinema, me mudei para Sampa e desde 2010, quando fiz minha primeira novela, estou no Rio. Enquanto for possível, gostaria de continuar fazendo teatro, cinema e TV.

Fale sobre o vaqueiro Iremar, um personagem que transita entre dois lados aparentemente opostos: é um homem rude que quer ser estilista.
É um personagem rico, cheio de sonhos e contradições. Quando li o roteiro, me apaixonei por ele e quis fazer o filme. Contradições são muito boas para a criação dos personagens, gera mistério, gera conflito interno. E contradições são normais na vida, ninguém é uma coisa só.

Iremar vive cenas tórridas em Boi Neon. Teve alguma dificuldade em atuar em momentos tão naturalistas?
Não. Quer dizer, sempre rola uma vergonha, um receio. Mas já me acostumei, já aprendi a controlar a ansiedade, o medo. Não éfácil, mas é normal. E eu confiava no diretor e no fotógrafo do filme, eu sabia que tudo seria feito com poesia e bom gosto. E assim foi feito.

Antes você viveu o Boca Mole de Febre do Rato, um filme que de um certo modo se aproxima de Boi Neon pela forma  como mostra o sexo. Acha que em algum sentido o personagem de Cláudio Assis tem a ver com Iremar?
Acho que Iremar e Boca Mole são muito diferentes. O que há em comum entre eles é o cinema pernambucano, que traz sempre um olhar rebelde, questionador, desafiador. Os personagens são  diferentes e os filmes também, mas nos dois casos falamos bastante sobre questionar estereótipos, questionar as ideias antigas, romper com o que é  antigo, reacionário, careta e ultrapassado.

Há uma sequência de sexo com uma personagem grávida em Boi Neon. As cenas foram para valer? Houve alguma preparação especial para isso?
A cena é maravilhosa, lindamente filmada, sem cortes, um belo e longo plano-sequência. Mas é uma cena, não é verdade. Somos atores, o nosso objetivo é fazer com que tudo pareça real. Acho ótimo que muita gente saia do cinema achando que ”rolou”. Mas era apenas cinema, arte, ficção.

Iremar, Merlô (da novela A Regra do Jogo) se aproximam de outros personagens que já fez, como o Adauto de Avenida Brasil. Acredita que se unem por um traço de ingenuidade?
Acho que sim, todos possuem alguma ingenuidade, mas cada um tem a sua ingenuidade. Eu tenho feito um grande esforço para afastar o Merlô do Adauto, nem sempre consigo porque o texto muitas vezes coloca o Merlô em situações parecidas com as do Adauto. Mas Iremar não tem essa mesma ingenuidade, que é também certa infantilidade. A ingenuidade do Iremar tem mais a ver com uma pureza, uma pureza de alma, um sensibilidade e doçura que ele tem no coração.

A novela está acabando. Tem mais planos para a TV? E no cinema, vai fazer (ou está fazendo) o quê?
Quero fazer mais trabalho na tv, quero fazer trabalhares melhores, maiores e mais relevantes. Mas, no momento, estou com saudade mesmo é do teatro.